BOLETIM DO CRIADOURO CAMPO DAS CAVIÚNAS
nº 1 MARÇO DE 2003
REDACTOR: Dr. JOSÉ CARLOS PEREIRA
RUA JOAQUIM DO PRADO, 49 CRUZEIRO/SP. TELEFAX 00XX12 5443590
drjosecarlos2000@uol.com.br
OS PROTOZOÁRIOS INTESTINAIS
Historicamente
deu-se o nome de parasitas aos organismos do reino animal capazes de
provocar infecções. São parasitos os protozoários, os helmintos
(vermes) e os artrópodes. Os protozoários são organismos unicelulares
(compostos por uma só célula), com uma pequena massa citoplasmática
contendo um ou mais núcleos e capazes de multiplicação dentro dos
hospedeiros. Podem ser esféricos, ovais, achatados dorso-ventralmente
ou estrelares. Podem se multiplicar por simples divisão binária,
brotamento ou esquizogonia e, também, de maneira sexuada por fusão dos
núcleos. Estão entre as maiores causas de morbilidade e de mortalidade
em muitas regiões do mundo. Existem mais de 500 milhões de pessoas
parasitadas pela ameba, 800 milhões pela toxoplasmose, dois bilhões e
seiscentos milhões pela malária e 250 milhões pela giárdia. Invadindo
o hospedeiro, o parasito pode morrer, sobreviver sem produzir qualquer
doença ou provocar doenças, desde as mais leves até as mais graves que
podem levar à morte. As doenças são determinadas pelas lesões diretas
provocadas pelos parasitos, pela competição com o hospedeiro pelos
nutrientes ou por reações do organismo contra a presença dos invasores
(reações imunológicas).
Existe um grupo de protozoários que limita as suas ações à parede do
intestino e, por isso, são conhecidos por protozoários intestinais.
São eles a Giardia lamblia, os coccídios (criptosporídios, a
Isospora belli, os ciclosporídios e os sarcocystis), o Blastocystis
hominis e a Dientamoeba fragilis. Outros protozoários que podem
provocar diarréia são o Balantidium coli e alguns microsporídios
A ameba (Entamoeba histolytica), embora colonize primordialmente a
epitélio intestinal, pode invadir a parede provocando úlceras e chegar
a outros órgãos como o fígado, os pulmões e o cérebro; portanto, não é
um parasito somente da superfície da parede intestinal. Os
criptosporídios estão entre s principais causas de diarréia em
crianças nos seis continentes e são a terceira causa de
hospitalizações de crianças por diarréia, principalmente nos meses
quentes e úmidos, perdendo somente para o rotavírus e a Escherichia
coli. A giárdia tem uma prevalência no mundo variando entre 0.5 até
50%; antes achava-se que os humanos eram os únicos reservatórios mas,
hoje, é certo que encontra guarida em outros animais como cães e
castores.
Os protozoários intestinais possuem várias características em comum:
1- São adquiridos pela boca ao ingerir-se água ou alimentos
contaminados por fezes ou pelo contato oral-fecal direto (mais comum
entre as crianças). Portanto, o seu controle depende essencialmente do
saneamento básico (água e esgoto tratados) e da higiene pessoal; 2-
Produzem diarréia aquosa acompanhada por cólicas, durando poucos ou
vários dias, sem sangue ou catarro, acompanhada ou não de
vômitos e, na maioria dos casos, sem febre; 3- A maioria dos casos é
assintomática; 4- Acometem principalmente as crianças; 5- São
resistentes aos métodos normais de cloração da água e sobrevivem por
meses em água fria e limpa. Não resistem às altas temperaturas e ao
ressecamento; 6- Parasitam outros mamíferos como gatos, cães,
ruminantes e castores e podem ser transmitidos deles para o homem; 7-
As infecções podem ser produzidas pela ingestão de poucos cistos
(10 a 20); 8- Possuem uma forma de resistência, os cistos, e uma forma
infectante, os trofozoítos e 9- Os cistos são resistentes ao suco
gástrico e somente dão origem às formas infectantes no intestino
delgado.
Há casos especiais que fogem às regras gerais. As amebas, quando
invadem a parede intestinal provocando ulcerações, produzem diarréia
com fezes com sangue e catarro, a disenteria amebiana. As giárdias
podem manifestar-se por fezes espumosas e levar aos quadros mais
persistentes de má absorção pela lesão das bordas em escova do
epitélio intestinal.
1-
Amebíase.
Ocasionada pela Entamoeba histolytica, parasito do lume
gastrintestinal mais comum nos trópicos. Em 1875, Losch
encontrou trofozoítos de E. histolytica nas fezes e úlceras
intestinais num lavrador russo. A forma cística do parasito foi
reconhecida em 1903 por Schaudin. Em 1925, Boeck conseguiu a
cultura em meios artificiais. A prevalência da amebíase no mundo
varia de 5 até 82% da população, provocando de 40 até 110 000
mortes/ano/mundo e ocupando o terceiro lugar entre as causas de
mortes determinadas por parasitos. A infeção tem início com a
ingestão dos cistos do parasito que medem 10 a 18 micrômetros de
diâmetro e possuem 4 núcleos. Muito resistentes às condições
ambientais e aos meio comuns de tratamento da água, são mortos por
temperaturas acima de 55 graus centígrados. Resistentes ao suco
gástrico, os cistos passam pelo estômago e desencistam-se no
intestino delgado dando origem a 8 trofozoítos. Esses trofozoítos,
medindo em média 20 micrômetros, são muito móveis e colonizam a
luz do intestino grosso e, sob condições especiais, podem invadir
a mucosa (em até 17% dos casos). Na realidade, as formas menores
geralmente vivem como comensais na luz intestinal e a
patogenicidade é determinada pelas formas maiores que medem até 60
micrômetros. O principal reservatório é o homem. Os trofozoítos
amebianos aderem a mucosa mediados por receptores
galactose-lecitina específicos e produzem proteínas capazes de
formar canais nas células das membranas, o que facilita a
penetração. A destruição tissular (os parasitos têm grande
capacidade citolítica) dá origem a úlceras caracteristicamente em
forma de botão de colarinho e com pouca reação inflamatória.
Algumas vezes, invadem o organismo e, pelo mesmo mecanismo, lesam
órgãos como o fígado e, mais raramente, pulmões e cérebro,
formando abscessos. Um dos maiores desafios da medicina é explicar
como lesões tão extensas ocasionam somente sinais inflamatórios
locais muito leves, além da falta de reação humoral sistêmica
(anticorpos) e das reações de defesa celulares. A maioria dos
casos de amebíase são assintomáticos, embora os cistos possam ser
encontrados nas fezes. A invasão tecidual, ocasionando sintomas,
acontece em 2 a 8% dos casos na dependência da linhagem do
parasito, do estado nutricional do hospedeiro e da constituição da
flora intestinal. Alguns estudos mostram que bactérias podem
transferir para as amebas algum fator de patogenicidade. Há
cólicas, premência para evacuar, fezes com muco claro, algumas
vezes pus, podendo estar coradas por sangue e com poucos
leucócitos quando examinadas ao microscópio. Os sinais gerais
caracteristicamente estão ausentes, podendo haver febre em um
terço dos casos. O quadro clínico dura de poucos dias a algumas
semanas e, nos casos não tratados, as recorrências são comuns. As
colites amebianas são mais comuns nos animais mais jovens, às
vezes com grande gravidade com desidratação, febre e calafrios.
Mais raramente há a perfuração intestinal com conseqüente
peritonite, extensão extraintestinal e ameboma (granuloma devido a
reação fibroblástica). Nos abscessos hepáticos há dor e distensão
abdominal com aumento doloroso do fígado. Outras amebas, como a
Entamoeba coli, a E. hartmanni, a E. gingivalis, a E. moshkovski
e a E. polecki são assintomáticas ou produzem quadro clínicos mais
leves. Tratamento com etofamida, teclosan e os derivados
imidazólicos (metronidazol, tinidazol, ornidazol e secnidazol).
2-
Coccidioses.
Infectam as células do epitélio do trato intestinal em mamíferos
provocando enterites e diarréias: 21- Criptosporídios
(elemento principal, o Cryptosporidium parvum). Das principais
causas de diarréia em animais pequenos. Foi descrito pela primeira
vez por Tyzzer, em 1907, estudando a mucosa gástrica de
camundongos assintomáticos. Em 1955 foi relatada uma doença
diarreica provocada por criptosporídios em perus e,
subseqüentemente, em mamíferos, inclusive o homem, aves, pássaros
e répteis. Em crianças é encontrado nos seis continentes e está
entre as 3 ou 4 causas mais freqüentes de hospitalizações por
diarréia, sendo somente suplantada pelo Rotavírus e pela bactéria
Escherichia coli. Após ser ingerido, o oocisto desencistam-se no
trato intestinal dando origem a 4 esporozoítos. Os esporozoítos
implantam-se nas células epiteliais (que revestem o intestino) e
começam o ciclo de auto-infecções na superfície luminal do
epitélio. O estágio sexual, comum nos protozoários, resulta em
oocistos (com somente 4 micrômetros de diâmetro) que são
excretados nas fezes já com capacidade infectante para outros
hospedeiros. Podem também reinfectar o mesmo hospedeiro sem a
necessidade de ser ingeridos. A quantidade de oocistos capaz de
efeitos infecciosos é muito pequena, em torno de 10 elementos, o
que facilita a transmissão. Embora sejam encontrados
principalmente no intestino delgado, podem parasitar o cólon e a
vesícula biliar nos animais imunocomprometidos. Em crianças,
responde por 5 a 15% das diarréias nos países em desenvolvimento e
3 a 3.5% nos desenvolvidos. Mais comum nos animais de menor idade,
incidindo mais durante os meses quentes e úmidos. Constituem uma
das grandes causas de diarréias persistentes, causando
grande morbilidade e mesmo mortalidade por desnutrição. Um dado
epidemiológico importante foi encontrado nos estudos de Michigan,
EEUU: 71% das famílias com uma criança doente tinham outros
membros afetados. Extrapolando para os canis, fatalmente se um
filhote estiver com a doença outros membros da ninhada estarão
contaminados. A incubação é de poucos dias até duas semanas. O
quadro clínico é de diarréia aquosa, freqüência de poucas até 50
evacuações por dia com dor abdominal em cãibra, falta de apetite,
perda de peso e mal-estar. Os vômitos surgem em 80% dos casos com
a freqüência variando de 1 até 15 por dia. Os vômitos
persistentes podem ser os únicos sinais da doença. Febre em um
terço dos casos, geralmente de média intensidade e durando menos
de 3 dias. Geralmente auto-limitada com recuperação total, entre
dois dias a um mês, a não ser nos imunocomprometidos, nos quais,
pode ser crônica e persistente. Às vezes os parasitos atingem o
epitélio das vias respiratórias provocando tosse. Nos
imunodeficientes pode haver colecistite e pancreatite. Infecta
muitos animais, como o homem e os cães, com especial predileção
pelos bovinos. Alguns animais tornam-se assintomáticos em duas
semanas mas continuam eliminando oocistos nas fezes durante longos
períodos. Nos exames laboratoriais fixam os corantes ácidos, o que
serve para diferenciá-los das leveduras. Algumas vezes, o número
de oocistos nas fezes é tão pequeno que exige o uso de técnicas de
concentração como o Sheather sugar flotation. Não há presença de
leucócitos nas fezes. O tratamento é basicamente de suporte,
procurando manter o animal hidratado e nutrido. Nos casos mais
sérios, em animais imunocomprometidos, podem ser usados
medicamentos como paromomicina e azitromicina; 22-Isosporíase
(Isospora belli, I. canis e I. ohioensis). Provoca infecção
intestinal em muitos animais e no homem. Mais encontrada nas
regiões tropicais e subtropicais, como América do Sul, África e
sudeste da Ásia. Após a ingestão, os oocistos invadem as células
do epitélio intestinal. Os oocistos eliminados nas fezes levam
algum tempo para tornarem-se infectantes, dificultando a
auto-infecção como ocorre com os criptosporídios. Os oocistos
eliminados nas fezes são maiores (25 micrômetros) do que os dos
criptosporídios; são eliminados de maneira intermitente, exigindo
múltiplos exames fecais ou procura dos mesmos no conteúdo duodenal
ou no material de biópsia. O quadro clínico surge subitamente com
febre, dor abdominal e diarréia aquosa sem sangue que pode durar
semanas ou meses. Provocam eosinofilia (aumento das células
chamadas eosinófilos no sangue) que não é encontrada habitualmente
em outros protozoários. O tratamento é feito com a associação
trimetoprima e sulfametoxazol; 23- Ciclosporídios
(Cyclospora cayetanensis). Provocam quadros clínicos semelhantes
aos dos criptosporídios. Não é invasivo e não há hamácias ou
leucócitos nas fezes. Os oocistos são esféricos e enrugados, medem
8 a 10 micrômetros de diâmetro e lembram criptosporídios maiores.
É um patógeno novo, com quadro clínico antes imputado a outros
elementos como as cianobactérias e ainda necessitando de estudos.
No laboratório, coram-se bem pelo Kinyoun e pelo Ziehl-Neelsen ou,
melhor ainda, com método modificado da carbo-fucsina. Como os
ciclosporídios, algumas vezes exigem o Sheathter sugar flotation
para a identificação. Responde bem ao tratamento com
trimetoprima e sulfametoxazol;24- Sarcocistis. Protozoários
encontrados principalmente em grandes mamíferos e raramente em
humanos. Diferentemente dos outros protozoários intestinais,
requer dois hospedeiros para a replicação. A reprodução sexual
acontece na mucosa intestinal do hospedeiro definitivo e resulta
na liberação de esporocistos nas fezes. O hospedeiro intermediário
ingere fezes contaminadas com esporocistos que invadem e infectam
as células do endotélio e, subseqüentemente, multiplicam-se
assexualmente formando sarcocistos, ou cistos, nas fibras
musculares, principalmente as estriadas, e no coração. O homem
pode ser hospedeiro intermediário ou definitivo. Causam
inflamações e edemas nos músculos. A infecção intestinal nem
sempre está associada com enterites ou diarréias. O homem, e bem
provavelmente o cão, adquirem o parasito pela ingestão de cistos
dos estágios musculares nas carnes de porco ou de vaca mal
cozidas. Não há tratamento específico; 25-Atoxoplasma.
Desenvolve-se de maneira assexuadamente nas células mononucleares
do sangue, o que, facilita a sua chegada a órgãos como o fígado,
os pulmões e o baço. É extremamente patogênico e resistente aos
sulfamídicos. Um dado clínico que chama a atenção é o fígado
enegrecido que pode ser visto através da pele como pontos escuros
(doença da mancha preta). A morte é a evolução mais comum. É
transmitido entre as aves pelos oocistos eliminados nas fezes e
não pelo ácaro vermelho Dermanyssus galinae como se pensava
antigamente; 26-Eimeria. Segue o mesmo padrão da Isospora e
completa o ciclo de vida no trato intestinal. A Eimeria grallinda
tem predileção pelo fígado das aves, o qual, encontra-se aumentado
de volume e apresentando pequenos focos brancos; 27- Dorsiella.
Encontrada em muitos passarinhos, mas a sua patogenicidade parece
ser mínima e 28- Wenyonella. Ainda pouco estudada.
3-
Giardíase.
São protozoários intestinais capazes de apresentarem quadros
variados, desde os assintomáticos até os diarreicos agudos ou
crônicos. Não produzem enterotoxinas. Em 1681, o pioneiro do
microscópio, Leeuwenhoek, observou, nas suas próprias fezes, pela
primeira vez, o parasito. Já em 1859, em Praga, o médico Lambl
associou o parasito a diarréia em crianças (daí a giardíase ser
também conhecida por lamblíase). A sua prevalência no mundo varia
de 0.5 a 50%, acometendo também cães, gatos, ruminantes, castores
e aves. Antes, achava-se que o homem fosse o único reservatório
mas, hoje, também os cães, os gatos, os ratos almiscarados e os
castores (como grandes construtores de barragem, devem contaminar
águas com facilidade) são considerados. É o agente mais comum
encontrado pelo Centers for Disease Control (CDC) em surtos de
doenças ocasionados por água contaminada. Atinge mais filhotes,
com quadros mais graves nos mal nutridos ou imunodeprimidos. A
infecção pode acontecer com a ingestão de poucos cistos (10)
medindo 8 a 10 micrômetros, paredes espessas, ovais e com 4
núcleos. Os cistos eliminados nas fezes podem ficar viáveis na
água durante dois meses, não sendo afetados pela cloração
rotineira ao contrário das bactérias. Alguns filhotes podem
eliminar cistos por período de até seis meses. Não toleram o calor
e a dessecação. O leite humano, e provavelmente o de outros
animais, possui ácidos graxos livres citotóxicos e imunoglobulina
A secretória capazes de proteção contra os cistos da giárdia.
Na parte alta do intestino delgado, cada cisto origina 4
trofozoítos que colonizam o lume duodenal e jejuno proximal
fixados aos bordos em escovas das células epiteliais e
multiplicam-se por fusão binária. Os trofozoítos têm corpo com a
forma de gota de lágrima dividido longitudinalmente por duas
hastes medianas, dois núcleos ovais localizados anteriormente, um
grande disco de sucção na superfície ventral, um corpo médio
curvado posteriormente e quatro pares de flagelos. Admite-se que
proteínas contráteis podem reduzir o tamanho do disco de sucção,
levando-o a formar um arco semelhante a uma ventosa como a
encontrada nos desentupidores de pia. Medem os trofozoítos 9 a 21
micrômetros de comprimento, 6 a 12 de largura e 2 a 4 de
espessura. Existem diversas estirpes (raças) com variações de
infectividade, estruturas antigênicas e padrões isoenzimáticos. Em
condições especiais, os trofozoítos dão origem a cistos. Como
acontece com os outros protozoários intestinais, a maioria dos
casos é assintomática. Nos outros casos, após um período de
incubação de 1 a 3 semanas, há início, súbito ou gradual, de
diarréia liquida sem sangue ou muco, falta de apetite com perda de
peso, desidratação, flatulência, eructação e dores em cãibras. São
características as fezes espumosas. Raramente os trofozoítos
invadem a lâmina própria da mucosa e levam aos quadros de febre e
diarréia inflamatória com fezes mucosas e contendo leucócitos. São
geralmente autolimitadas. Nos casos mais graves, há a
destruição dos bordos em escova (responsáveis pela absorção dos
nutrientes) das células do epitélio intestinal com a conseqüente
má absorção dos açúcares (como a xilose e os dissacarídeos), das
gorduras e das vitaminas lipossolúveis (A,D,E e K). A intolerância
à lactose, manifestada geralmente por diarréia e cólicas, pode
durar semanas ou mesmo meses. Algumas vezes, a giardíase pode
provocar urticária crônica. Autores afirmam que os animais
portadores de giárdias geralmente apresentam quadro mais graves de
viroses intestinais como a coronavirose e a parvovirose. A
eliminação de cistos e trofozoítos nas fezes é intermitente,
exigindo o exame de várias amostras. Algumas vezes há a
necessidade da biópsia duodenal para o diagnóstico. Os testes para
a detecção de antígenos são muito sensíveis e específicos. O
tratamento é feito com furazolidona ou imidazólicos como o
metronidazol, o secnidazol e o tinidazol.
4-
Blastocystis
hominis.
Aparece em 3 a 18% dos exames de fezes realizados. Embora haja
controvérsias se provoca diarréia, são descritos casos de diarréia
durando até meses, vômitos e perda de peso. Antes era considerado
um fungo e não protozoário. O tratamento pode ser feito com
metronidazol ou iodoquinol.
5-
Dientamoeba
fragilis.
Pela falta de conhecimento e a dificuldade de identificação é
difícil calcular a sua prevalência. Único protozoário intestinal
que tem estágio trofozoítico mas não o cístico. Aparece em 4.2%
dos exames de fezes feitos. Pode também ser transmitido através de
ovos ou larvas de oxiúros sujos com restos fecais contaminados.
Quadros de dor abdominal crônica, diarréia intermitente e falta de
apetite. As fezes diarreicas (detesto diarréicas) podem conter
sangue e muco. Na metade dos casos há aumento dos
eosinófilos no sangue. Para o exame devem se colhidas várias
amostras das fezes. Às vezes, para o diagnóstico, há a necessidade
da imunofluorescência indireta. O tratamento é feito com
diiodohydroxyquinina e as tetraciclinas.
6-
Microsporídios.
São protozoários pequenos que, como característica interessante,
formam esporos com 0.5 a 2 micrômetros de diâmetro com vida
intracelular obrigatória. São membros do Filo (phylum) Microspora,
o qual, possui dezenas de gêneros e centenas de espécies
distribuídos modernamente tendo como base o estudo do RNA
ribossômico. O ciclo de vida completo tem como resultado os
esporos que são os verdadeiros agentes infecciosos. Hoje, são
conhecidos sete gêneros capazes de produzirem doenças no homem: 1-
Encephalitozoon, de vida intestinal, com quadro de diarréias
crônicas principalmente nos portadores de AIDS. Podem provocar
também colecistites. O E. intestinalis provoca quadro de diarréia,
febre, sinusite, colangite e bronquiolite e o E. hellem
manifesta-se por ceratoconjuntivite, sinusite, infecções
respiratórias e disseminadas.; 2- Pleistophora, com quadros de
miosite; 3- Nosema, com quadros de ceratites pós traumas em
imunocomprometidos; 4- Vittaforma, ceratites após traumas em
imunocomprometidos; 5- Septata; 6- Enterocytozoon. O E. bieneuse
provoca diarréia crônica e 7- Microsporidium, também provocando
ceratites pós traumas em imunocomprometidos.
7-
Balantidíase.
Doença determinada pelo Balantidium coli, protozoário
ciliado grande que provoca doença intestinal semelhante a da
amebíase. Pode ser transmitida pessoa a pessoa, através da
água e pela ingestão de fezes de porcos (principalmente nos
abatedouros, fezes usadas como fertilizantes e pela
contaminação da água). Nos países muçulmanos, os roedores são
portadores importantes. Infecta principalmente os porcos e humanos
que habitam locais de criação dos mesmos. Os cistos liberam
trofozoítos que habitam e duplicam-se no intestino grosso. A
maioria dos casos é assintomática. Nos sintomáticos há a
invasão da mucosa com necrose focal e ulceração sem disseminação
pela via hematogênica. As fezes diarreicas podem conter sangue
e/ou muco. O tratamento é feito com tetraciclinas.
8-
Trichomonas.
Protozoários flagelados que parasitam o intestino delgado e o
grosso. Podem provocar diarréia em casos especiais. Alguns
veterinários amigos informam que têm encontrado, até com alguma
freqüência, pentatrichomonas em fezes diarreicas de cães. As fezes
podem conter catarro e sangue. Atingem principalmente filhotes. O
tratamento é feito com os imidazólicos.
NOTA: O tratamento dos protozoários intestinais
deve sempre ser feito sob a orientação do veterinário.
O diagnóstico
pode ser feito pelo quadro clínico e pelos exames laboratoriais. Como
a eliminação dos parasitos nas fezes é intermitente, devem ser
colhidas, como já foi dito, pelo menos, três amostras de fezes, em
dias diferentes, para os exames. No bolo fecal, as amostras para os
exames devem ser colhidas em 3 a 4 pontos diferentes. No casos dos
pássaros, seria importante colher amostras de fezes várias vezes
durante o dia.
Aos governantes, à comunidade e às pessoas individualmente cabe
procurar os meios para evitar o contágio pelos protozoários
intestinais:
-
Tratamento da água e fornecimento a toda a população em quantidade
suficiente. Construção de sanitários públicos limpos, cuidados com o
lixo e construção de esgotos são também atos governamentais
essenciais.
-
Construção de sanitários nas residências, evitando fossas e a
eliminação dos dejetos no meio ambiente. O canis devem ser mantidos
escrupulosamente limpos, devendo as fezes serem encaminhadas
para a rede de esgotos tão logo sejam eliminadas pelos animais. As
botas usadas durante a limpeza dos canis não devem ser usadas em
outros compartimentos, assim como outros utensílios como vassouras,
rodos, mangueiras de água, etc. Não esguichar a água diretamente
no bolo fecal para não disseminar possíveis parasitos; recolhe-las com
uma pazinha e somente depois lavar o chão.
-
Evitar nadar em águas também freqüentadas por animais. É comum a
natação em rios que são contaminados a jusante por excrementos de
animais de fazendas, sítios e chácaras.
-
Ficar atento ao tratamento dos animais domésticos, algumas vezes
contaminantes do meio ambiente familiar. Animais domésticos não devem
ficar dentro de casa, principalmente se houver crianças, a não ser que
sejam constantemente checados contra os vermes e protozoários. Evitar
que crianças brinquem nos locais destinados aos animais. Deixar o cão
freqüentar a piscina é um risco que deve ser bem calculado.
-
Fazer controle constante das crianças contra vermes e protozoários.
Igual cuidado deve ser tomado com os filhotes. Como os protozoários
intestinais são vários, e os tratamentos nem sempre iguais, a técnica
de usar de tempo em tempo um medicamento em todos os animais do
canil nem sempre é eficiente. No nosso canil somente usamos o método
contra a giárdia e a ameba.
-
Lavar as mãos das crianças antes das refeições e após as evacuações
usando sabão e uma escovinha para limpar as unhas. Lavar as mãos
adequadamente é uma das ações mais importantes no controle das
infecções, tanto por sua eficiência como pela facilidade de execução.
Infelizmente, é muito negligenciada pelas pessoas. Se o criador
conseguir lavar as patas dos filhotes, pelo menos uma vez por dia,
usando água e sabão, evitaria algumas dores de cabeça.
-
Isolar o animal doente e procurar detectar os parasitos em outros
animais do canil.
Enfim, como os protozoários intestinais atuam como verdadeiras
zoonoses, capazes da transmissão animal-homem, os cuidados sempre
devem envolver os dois elos. Nunca esquecer que o criador também tem
família.
E daí, devem estar perguntando os passarinheiros, o que temos a ver
com isso? Tudo.
Como causadores de zoonoses, alguns protozoários intestinais podem
atingir o homem vindo dos animais e vice-versa. Portanto, além da
importância do controle dos protozoários no plantel, as suas atitudes
passam a ter um sentido social mais amplo.
O controle é relativamente fácil. O mecanismo de transmissão é
sempre o mesmo: saída dos parasitas pelas fezes, contaminação do
meio-ambiente e entrada pela boca, característica da contaminação
fecal-oral. Desconhecer esse princípio básico é dar mole para o
bandido. Portanto, todos os cuidados citados aí em cima envolvendo o
homem e o cão têm tudo a ver com os passarinheiros. Estão todos na
mesma barca e o azar de um pode ser a desgraça do outro.
Especificamente, alguns cuidados podem ser tomados pelos
passarinheiros para evitar que o seu criatório (criadouro. Na verdade,
ainda não achei uma boa e definitiva palavra para definir o local onde
são criados pássaros) torne-se foco exportador e importador de
protozoários:
-Lavar rigorosamente as mãos com água e sabão, sabão mesmo, esfregando
as unhas com uma escovinha antes de manusear as frutas, as hortaliças
e a água que serão fornecidos aos pássaros. As mãos devem ser lavadas,
sempre com água e sabão, antes e depois de manusear pássaros ou os
utensílios.
-Lavar rigorosamente, com água e sabão, frutas e as hortaliças que
serão dadas aos pássaros e enxágua-las muito bem. Podem ser deixadas
por alguns minutos em solução água e vinagre ou de hipoclorito de
sódio, não se esquecendo de enxaguar copiosamente antes de dá-las aos
pássaros. Pela simplicidade, creio que o lavar as mãos e as frutas e
hortaliças já será uma grande ajuda no controle desses parasitas.
-Oferecer aos pássaros somente água, no mínimo, filtrada. A água
fervida seria mais seguro, desde que seja mantida no fogo pelos menos
durante 20 minutos após levantar a fervura. Lembrar que os coccídios
suportam bem as vicissitudes do meio ambiente, as temperaturas de até
57ºC e os meios comuns de cloração da água. Os mesmo cuidados devem
ser tomados com a água para os banhos dos pássaros. Lavar, se possível
de maneira individualizada, os utensílios também com água filtrada. Se
for possível, pelo menos uma vez por mês, ferver os utensílios
resistentes à fervura, principalmente as grades e as bandejas do fundo
da gaiola para quebrar o ciclo evolutivo dos parasitas. Se for
organizada uma rotina, mesmo nos criatórios maiores as atividades
profiláticas serão relativamente fáceis.
-A manutenção higiênica do prédio onde está instalado o criatório deve
ser diária, evitando o acúmulo de dejetos e restos alimentares. Ter um
jogo de mangueira, pazinha de limpeza, baldes, botas, vassouras,
rodos, cestos de lixo, etc. somente para dentro do criatório. Se
existirem mais de um ambiente, um jogo para cada um. Verão que vale a
pena o investimento. O uso de detergentes e outros produtos de limpeza
deve ser feito com orientação técnica. Aqui, não cabem
improvisações. Seria interessante, pelo menos umas duas vezes por ano,
no final da muda de pena e no final do período de criação, passar uma
vassoura de fogo em todas as instalações. Creio que até as gaiolas e
as bandejas poderão ser desinfetadas com a vassoura de fogo, tendo-se
o cuidado no tempo de exposição para não danificá-las. A grande
maioria dos parasitas é resistente a muitos produtos de limpeza, mas
nenhum resiste ao fogo. Os únicos cuidados são tirar as aves do
criatório e não por fogo nas instalações...
-Muito cuidado com as fezes das aves. O papel do fundo da gaiola deve
ser trocado diariamente. O costume de colocar várias camadas de papel
não é bom, pois, o filtrado da parte líquida fecal pode levar os
parasitas para a folha de baixo (lembrar que estamos lidando com seres
microscópicos). Deve ser usada uma folha de papel e a bandeja deve ser
limpa diariamente e colocada ao sol (para isso, seria bom ter, pelo
menos, duas bandejas por gaiola). Individuar as bandejas para evitar
usar bandeja usada em gaiola de pássaro contaminado para a gaiola de
pássaro não contaminado criando, assim, condições para disseminação da
infecção pelo criatório. Se você usa areia na bandeja, tenha muito
cuidado, pois, se não houver troca constante e higiene impecável, será
um meio propício para manutenção dos parasitas.
-Muito cuidado com as gaiolas usadas para manter os machos e levá-los
aos torneios. Como ficam a maior parte do tempo fora do criatório, no
ambiente externo e em locais diferentes, têm maiores possibilidades de
ser depósitos de parasitas. São feitas de madeira, com muitos detalhes
e têm muitas saliências e reentrâncias que facilitam a vida dos
parasitas e dificultam higienizá-las. E, na maioria das vezes, não
possuem grade separando a bandeja dos pássaros como acontece com as
gaiolas de criação. Creio que, num futuro próximo, poderão ser
substituídas por gaiolas feitas somente de arame.
-As vasilhas contendo sementes, farinhadas, minerais e água
devem ser colocadas de modo a evitar que sejam atingidas pelos jatos
evacuatórios dos pássaros. Inspecioná-las diariamente e, se estiverem
sujas com excrementos, desprezar o conteúdo e higienizá-las.
-Muito cuidado com os poleiros (não existe a grafia puleiro). Devem
ser colocados de maneira que não possam ser sujos pelas fezes, pois,
pelo hábito das aves limparem o bico neles após alimentarem-se, a
contaminação será fácil.
-Cuidado especial com pássaros trazidos de fora do canaril, mesmo que
seja somente para uma galadinha. Fazer quarentena nem sempre é
praticável. Se o galador vier de canaril que mantenha boas condições
higiênicas tudo fica mais fácil. Seria ótimo os donos dos bons
pássaros galadores manterem os pássaros em ótimas condições de higiene
física, social e até mental, pois, eles podem representar um boa fonte
de renda para abater nas despesas do criatório.
-Com as aves adquiridas para compor o plantel a quarentena é
obrigatória, a não ser que venha de criatório que mantenha rígidas
condições de controle sanitário do plantel. Creio que a quarentena de
três semanas é suficiente para os protozoários intestinais e muitas
outras doenças. Não trazer o pássaro em gaiolas do criatório
onde a adquiriu. Manter o pássaro entrante fora das instalações que
albergam o plantel. O ideal seria uma pessoa para cuidar somente dele
e que não tivesse acesso ao criatório. Se não, usar luvas ou lavar
rigorosamente as mãos, com água e sabão, após o trato e cuidados com
os utensílios da ave em quarentena. Todos os utensílios, produtos
alimentares, vassouras, pazinhas, cestos de lixo, etc. devem ser
mantidos separadamente dos usados com o plantel. Ponto de água para
lavar os utensílios separado. Muito cuidado com os excrementos. A
quarentena deve ser para valer ou nem vale a pena ser feita.
-Cuidado com os machos que vão a torneios ou a outros criatórios para
coberturas. Podem trazer os parasitas para o criatório. Seria
interessante ter uma gaiola somente para torneios e outra para a
manutenção do pássaro no criatório.
-Levar água filtrada e/ou fervida quando for a torneios, evitando dar
ao pássaro água de torneira sem as condições higiênicas seguidas no
criatório. Se esquecer, é preferível dar água de garrafa tipo natural.
Nem para o banho deve ser usada água do local dos torneios.
-Cuidado com a água do banho dos pássaros. Deve ser, pelo menos,
filtrada e, sempre que possível, fervida. Tirar a vasilha logo que o
pássaro terminar o banho.
-Algumas vezes os parasitas podem ser trazidos para o criatório pelas
patas de pássaros, como os pardais, ou das moscas. Telar as janelas,
portas e as aberturas para a ventilação é medida heróica. Não deixar
lixo ou restos de comida expostos é essencial porque eles atraem
pássaros, moscas e predadores, inclusive ratos. Muitas plantas também
são atrativos.
-E sol, amigos, pois, onde entra o sol não entra o médico, ou o
veterinário, como dizia minha avó. Locais escuros, muito quentes e
úmidos jogam para os bandidos.
As medidas profiláticas são econômicas e, tornadas rotinas, de fácil
execução. Servem também para evitar muitas outras doenças que
infernizam os criadores, como as determinadas pelas bactérias
intestinais (Salmonellas, Shigellas, Escherichias, Yersinia e
Campylobacter).
Prezado amigos passarinheiros.
Os nossos boletins foram escritos originariamente para cachorreiros,
especialmente para os criadores dos extraordinários cães pastores
alemães.
Alguns passarinheiros, que os recebiam por também se dedicarem aos
cães, e outros que viram alguns números acharam que poderiam ser
adaptados para os criadores de pássaros. Resolvi topar a parada.
Se não ficar muito bom podem cair de pau, não esquecendo do Roberto
Barros, o incansável estimulador dos jovens e abusados passarinheiros.
Eheheheheh.
Mas, acreditem, foi tudo feito com a maior boa vontade.
Não falo em doses de medicamentos ou esquemas de tratamentos porque
não sou veterinário. Procuro enfatizar a importância dos cuidados para
se evitar as doenças. Esses cuidados dependem essencialmente do
criador.
José Carlos.