Há um grupo de
bactérias chamadas Enterobacteriáceas porque vivem no intestino
(entero = relativo ao intestino), principalmente no cólon, embora
possam também colonizar outros habitats. Têm a forma de bacilos
(bastonetes), vivem em ambiente com oxigênio (aeróbias) ou sem ele
(anaeróbias facultativas), fermentam a glicose produzindo ácidos e
gases, possuem cromossomo com duas hélices de DNA e algumas apresentam
flagelos que facilitam a movimentação. Resistem ao ambiente ácido do
estômago e ao ambiente alcalino, detergente (determinado pelos sais
biliares) e rico em enzimas do intestino delgado. Algumas são apenas
comensais e outras podem ser extremamente patogênicas como as
Salmonellas, as Shigellas, a Edwardsiella, o Citrobacter e a Yersinia.
São resistentes a muitos agentes físicos, mas podem ser mortas pelo
calor de 54.5 graus centígrados por uma hora ou 60 graus centígrados
durante15 minutos. Permanecem viáveis alguns dias na temperatura
ambiente ou nas baixas temperaturas e durante semanas no esgoto,
alimentos secos, agentes farmacêuticos e material fecal. São bactérias
de grande plasticidade genética que permite viverem em vários
habitats. Na superfície contêm três antígenos: o somático (O), o
flagelar (H) e o capsular (K) que servem para os testes sorológicos
para a identificação. Os fatores de resistência situam-se em
plasmídeos que passam de uma bactéria a outra, o que, explica a
facilidade de resistência dessas bactérias aos antibióticos mais
usados nos consultórios, hospitais e na pecuária. Nos países
temperados ocorrem mais nos meses quentes e nos trópicos nos meses
mais chuvosos, os meses que contêm a letra R no seu nome.
Nos humanos, a E.
coli é uma das três principais causas de diarréia em todo o mundo,
sendo as outras duas o Campylobacter e o Rotavírus. É responsável por
mais da metade dos cinco milhões de casos anuais da diarréia dos
viajantes, como o Casablanca crud, o Delhi belli, o Turkey trot, o
Aztec two-step e, o mais famoso, a vingança de Montezuma.
As Escherichias são
divididas em cinco variedades capazes de provocar doenças diarreicas
por mecanismos diferentes: a- E. coli enterotoxicogênica (ETEC),
provoca doença por ação de potentes toxinas que não matam as células
da parede intestinal, mas provocam alterações nos seus mecanismos de
absorção de água e eletrólitos. Adere firmemente às células
facilitando a colonização. É o agente mais comum da chamada diarréia
dos viajantes e uma das principais causas de desidratação por diarréia
em crianças nos países em desenvolvimento. Os sinais típicos são
diarréia líquida explosiva, náuseas, vômitos, dor abdominal, febre
baixa (ou sem febre) e que persistem por alguns dias ; b- E. coli
enteroinvasiva (EIEC), atua, como a Shigella, fixando-se e invadindo
as células que revestem o intestino. A clínica é de febre, cólicas
abdominais, que podem ser muito fortes, sinais gerais de toxicidade,
tenesmo (esforço doloroso para evacuar) e diarréia aquosa e sem
sangue, mas, algumas vezes, pode ser sanguinolenta; c- E. coli
enteropatogênica (EPEC), não atua por toxinas e nem pela invasão
celular. Age fixando-se às células e lesando as microvilosidades
responsáveis pela absorção da água e dos eletrólitos. É importante
causa de diarréia em crianças dos países em desenvolvimento,
principalmente entre os neonatos, os menores de 2 anos de idade e
crianças institucionalizadas. A diarréia não se apresenta com sangue,
é aquosa, mas tem catarro e, geralmente, não há febre. Pode evoluir
para a cronicidade prejudicando o crescimento da criança; d- E.coli
enterohemorrágica (EHEC), produtora de toxinas, uma delas semelhante à
toxina de Shiga das Shigellas, com grande poder de destruição das
células dos mamíferos. É responsável, principalmente o serotipo
O157:H7, por uns 20000 casos de colites, muitas vezes hemorrágicas,
nos Estados Unidos. A clínica é de diarréia inicialmente aquosa
evoluindo, em poucos dias, para sanguinolenta(sangue vivo ou oculto),
dor abdominal intensa e, diferentemente da EIEC, a febre não é muito
comum. Pode complicar, principalmente em crianças pequenas e nos
idosos, com a síndrome hemolítico-urêmica (anemia por destruição das
hemácias, queda das plaquetas e insuficiência renal) e e- E. coli
enteroagregadora (EaggEC), atua pela adesão às células e produção de
toxinas. A clínica é de diarréia com grande perda de líquidos e
eletrólitos que leva rapidamente à desidratação, mas os vômitos e o
sangue nas fezes não são freqüentes. Geralmente o quadro é prolongado,
como acontece com a EPEC, podendo prejudicar o estado nutricional da
criança.
Excetuando a E. coli
enterohemorrágica e algumas E. coli enteropatogênicas, exigem uma
grande inoculação de organismos para produzir doenças, o que, explica
ser a transmissão pessoa a pessoa menos comum. A ingestão de água ou
alimentos contaminados é a maneira mais comum de infecção,
principalmente se houver pouco cuidado na manipulação dos alimentos e
com o tratamento dos esgotos. Nos Estados Unidos, o consumo de
hambúrguer mal cozido é a causa isolada mais freqüente dos surtos das
infecções pela E. coli enterohemorrágica, cujo serotipo 0157-H7 também
pode ser transmitido pelas fezes de gado vacum, veados e outros
ruminantes que podem contaminar alimentos e a água; nos Estados Unidos
essa bactéria já foi encontrada contaminando cidras, vegetais crus,
salames, iogurtes e a água de locais de recreação.
As Escherichias podem
provocar outras doenças, como 80% das infecções urinárias em crianças
e, principalmente em recém-nascido, septicemia (disseminação pelo
sangue).
As medidas preventivas
mais eficientes são a alimentação dos bebês no seio, atenção com a
higiene pessoal, principalmente lavar as mãos, com água e sabão, antes
das refeições ou após ida ao sanitário, tendo cuidado especial com as
unhas das crianças que devem ser lavadas com auxílio de uma escovinha;
lavar muito bem os alimentos consumidos crus (legumes, verduras e
frutas que, quando possível, devem ser descascadas pela própria
pessoa), deixando-os numa solução de água e vinagre; quem manuseia
alimentos (merendeiras, cozinheiras, chapeiros de carrinhos de
lanches, etc.) deve ter muito cuidado com o asseio das mãos e, quando
indicado, usar luvas; ao comprar alimentos embalados, cuidado com a
data do vencimento e com embalagens amassadas, enferrujadas, furadas
ou rasgadas; somente comer carnes bem passadas, sem nenhuma parte
ainda vermelha e leite cru nem pensar. As mãos também devem ser
lavadas após os cuidados com os cabelos, depois de limpar o nariz,
depois de pegar ou cuidar de animais e depois da jardinagem. Enfim,
lavar as mãos é o ato mais simples e eficiente para evitar a
disseminação de inúmeros parasitas. Quem viaja para locais onde o
saneamento básico e as condições de higiene são pobres deve tomar
somente água engarrafada de boa procedência, evitar pedras de gelo,
comer frutas que possam ser descascadas pela própria pessoa, não comer
saladas e comer refeições cozidas ou assadas a grandes temperaturas
servidas ainda quentes, pois, se assim não fizer, poderá engrossar as
listas dos acometidos pela diarréia dos viajantes. Use luvas ao
cuidar do jardim ou outras plantações, principalmente se houver o uso
de excremento animal (esterco). Alguns autores aconselham cuidado
especial ao manusear batatas, rabanetes e tudo o que der embaixo da
terra.
Começada a diarréia, dar à criança o soro hidratante oral aos poucos e
procurar orientação médica. Se não tiver o soro comprado na farmácia
ou o soro oral fornecido pelos Postos de Saúde, preparar e usar o soro
caseiro que pode ser preparado facilmente usando como medida uma
tampinha de metal de garrafa, sem a rolha ou o plástico, devidamente
fervida: 750 ml (igual a três mamadeiras cheias) de água fervida ou
filtrada, uma tampinha de refrigerante rasa de sal de cozinha e nove
tampinhas rasas de açúcar. Também pode ser usada, se estiver à mão, a
medida fornecida pela Pastoral da Criança.
Para alguns autores,
entre os pássaros a Escherichia coli chega a ser mais importante do
que a Salmonella. Não há correlação entre os serotipos de Escherichias
que acometem os humanos com os que acometem os pássaros porque ainda
não houve a tipagem dos parasitas nos pássaros. Acredita-se que os
serotipos 01, 02 e 078 estejam entre os mais freqüentes. Do mesmo
modo, a patogenicidade da E. coli entre os pássaros não está bem
clara. Na parede intestinal o mais encontrado é a inflamação catarral
não específica provocada por uma enterotoxina, a qual, leva a grande
aumento da exsudação de líquidos para a luz intestinal.. Mas, o grande
achado, o orgasmo dos patologistas, é a lesão histológica que
caracteriza a inflamação serofibrinosa (a fibrina é uma substância
proteica, filamentosa, elástica e esbranquiçada que se deposita pela
coagulação espontânea do sangue, da linfa e de alguns exsudatos. Faz
parte dos processos inflamatórios) encontrada, principalmente, nos
rins e no fígado. A inflamação serofibrinosa pode atingir outros
órgãos como o olho (depósito fibrinoso na câmara anterior e uveíte),
as serosas (membrana que envolve alguns órgãos como um saco e que
secreta serosidade na sua face interna, o que facilita o deslizamento
dos órgãos contidos nelas. São serosas a pleura que reveste os
pulmões, o pericárdio do coração, o peritônio das vísceras abdominais
e a túnica vaginal do testículo), as articulações e, mais raramente, o
sistema nervoso central. As lesões serofibrinosas podem atingir os
sacos aéreos. A pneumonia é rara, mas pode haver rinite primária ou
secundária a outro foco da infecção. Os filhotes têm maior
possibilidade de contraírem a pneumonia pela inalação de poeira do
ninho contaminada. Os filhotes também são mais predispostos às
infecções das articulações (juntas) e da medula óssea (o popular
tutano) durante a disseminação das Escherichias pela via sangüínea
(septicemia). A infecção dos órgãos genitais dos machos é mais rara,
mas, atingidos os testículos, a esterilidade pode ser permanente.
Creio que não precisamos queimar muito fosfato para atinarmos para a
gravidade de uma infecção dessas num aviário grande ou com um
manancial genético feito durante anos. Perdas qualitativa e
quantitativa irrecuperáveis. As fêmeas podem apresentar inflamação
fibrinosa do ovário e/ou do oviduto, geralmente processo crônico que
termina com a infecção progredindo até o peritônio e daí, amigos,
babau e partir para outra como diria minha avó. O ovário pode ser
atingido por bactérias vindas por via ascendente da cloaca ou de
outros focos infecciosos principalmente dos sacos aéreos. Como as
fêmeas somente possuem um ovário pode-se raciocinar que a esterilidade
seja mais comum do que entre os mamíferos que têm dois ovários.
Algumas cepas de Escherichias podem destruir a parede intestinal
formando ulcerações e a temível enterite pseudomembranosa ou
ulcerativa, caracterizada por ulcerações cobertas por pseudomembrana
formada por material necrótico e fibrina que se destaca em placas e
que são vistas geralmente em exames pós morte. Outro aspecto
patológico interessante é o chamado coligranuloma (formação tumoral de
tecido conjuntivo jovem muito vascularizado formado no processo de
cicatrização de uma úlcera ou ferida) encontrado na pele, no baço, no
fígado, nos rins, no intestino; o centro do granuloma pode estar
mineralizado.
Nas infecções limitadas
à parede intestinal há diarréia líquida, amarelada ou esverdeada,
algumas vezes com catarro e/ou sangue nas lesões mais profundas e
ulceradas, aumento do volume urinário (interessante que, nas crianças
diarreicas, há diminuição do volume urinário), perda de peso e, nos
casos mais graves, grandes perdas proteicas com conseqüente caquexia
(fraqueza extrema). A grande perda de líquido e sais minerais pode
levar às desidratações. O pássaro apresenta-se triste, encorujado
(sempre ouvi dizer que o pássaro encolhido e com as penas arrepiadas
por frio ou doença estava encorujado. Agora vejo nos dicionários que
os termos certos para essa postura dos pássaros são engrujado ou
engurujado. Desculpem, Aurélio e Houaiss, mas vou no popular:
encorujado porque parece postura de coruja), deixa de comer ou come
muito menos e, se não for cuidado, corre grande risco de vida. Nos
quadros septicêmicos há esses mesmos sinais, mas com características
mais graves e acompanhados de letargia (indiferença ao meio ambiente e
sonolência). Nos quadros com rinite o pássaro mantém o bico aberto
para ajudar na respiração e podem ser observadas secreções nasais. Nos
acometimentos pulmonares o pássaro pode apresentar-se com a pele
cianótica (azulada) e dispneico (não gosto de dispnéico, parecendo-me
muito afetado), respirando mais rápido e/ou profundo. As lesões
articulares e da medula óssea são muito dolorosas, obrigando o pássaro
a pousar num só membro e ficar relutante em movimentar-se (aí, caro
Ivan de Sousa Neto, mais uma causa de lesão do trem de pouso dos
passeriformes para preocupações). As infecções dos órgãos genitais
serão sentidas na falta de ovos férteis e nos bolsos. Na realidade,
ganhando a corrente sangüínea (septicemia) as Escherichias podem
provocar abscessos em qualquer órgão.
Agora vem um
probleminha. O diagnóstico laboratorial, diferentemente do que se
pensa, não é fácil. Nas infecções que envolvem fluídos normalmente
estéreis, como a urina, o sangue, a bile, as secreções pleurais ou
peritoniais e o líquor, o isolamente da Escherichia por cultura é um
dado fidedigno, desde que a coleta do material seja tecnicamente
perfeita. Mas, no caso da cultura de fezes, sabendo-se que as
Escherichias são também comensais integrantes da flora intestinal
normal, o furo é mais embaixo e os resultados pouco orientarão no
diagnóstico; para isso seria necessário tipar a bactéria por técnicas
sofisticadas, como a ampliação do ácido nucléico, na busca de genes de
bactérias potencialmente mais virulentas, as quais, somente são
disponíveis em laboratórios de ponta a custos proibitivos. Portanto,
amigo passarinheiro, não quero desanimá-lo, mas não fique confiando
muito que uma cultura de fezes positiva para Escherichia, com
antibiograma baseado nela, irá resolver o problema dos seus pássaros.
Confie mais no olho clínico, na experiência e no taco do seu
veterinário.
Como digo sempre,
tratamento é campo dos veterinários. Os
genes que codificam a virulência e a resistência da bactéria aos
antibióticos estão no mesmo plasmídeo (parte extracromossômica da
célula bacteriana portadora de informação genética). O recado genético
é o seguinte: se for usado antibiótico inadequado, cria-se a
resistência e agrava-se virulência bacteriana. Praga de sogra.
Portanto, se for indicado antibiótico, deve ser o mais adequado e
usado dentro dos padrões técnicos que favoreçam a sua eficiência. O
uso de antibióticos para evitar a doença somente irá selecionar as
bactérias mais resistentes. Não posso deixar de falar, está dando
cócegas. A enterocolite pseudomembranosa é um dos terrores dos
pediatras. É determinada por bactérias anaeróbias, principalmente o
Clostridium difficile, no decorrer ou alguns dias após o uso de
antibióticos como a ampicilina, a cefalosporina e a amoxicilina, os
quais, causando desequilíbrio na flora intestinal, favorecem o
crescimento das bactérias patogênicas. Tem alto índice de mortalidade.
Volto a insistir: somente usem antibióticos com a orientação do
veterinário e evitem usá-los profilaticamente. Hoje, na medicina
humana, não são mais usados nas gastroenterites medicamentos
adsorventes como o caolin-pectina (entre outros motivos, por
espoliarem alguns eletrólitos como o sódio e o potássio) e os
antiespasmódicos como o elixir paregórico, o loperamide e o
difenoxilato (diminuem a motilidade intestinal que é fator de defesa e
prolongam o tempo de excreção de algumas bactérias patogênicas). O uso
dos medicamentos contra vômitos é muito limitado (podem deprimir o
sistema nervoso central do animal, piorando o quadro e dificultando a
reposição do soro por via oral). Geralmente os vômitos melhoram com a
hidratação. Creio que devemos seguir os mesmos preceitos com os
nossos pássaros, inclusive para darmos exemplo mantendo posição ética
com eles que somente nos alegram. Não temos o direito de agredi-los
com baboseiras e que tais.
E daí, devem estar
perguntando os passarinheiros, o que temos a ver com essa pendenga?
Tudo.
As
Escherichias podem atingir o homem vindo dos animais (zoonose) e
vice-versa para não ser injusto com os nossos pássaros. Portanto, além
da importância do controle das Escherichias no plantel, as atitudes do
criador passam a ter um sentido social mais amplo.
O
controle é relativamente fácil. O principal modo de transmissão é o
fecal-oral: saída dos parasitas pelas fezes, contaminação do
meio-ambiente e entrada pela boca. Desconhecer esse princípio básico é
dar mole para o bandido. Portanto, quase todos os cuidados citados aí
em cima envolvendo o homem têm tudo a ver com os passarinheiros. Estão
todos na mesma barca e o azar de um pode ser a desgraça do outro.
Especificamente, alguns cuidados podem ser tomados pelos
passarinheiros para evitar que o seu criatório (criadouro. Na verdade,
ainda não achei uma boa e definitiva palavra para definir o local onde
são criados pássaros) torne-se foco exportador e importador de
Enterobactérias:
-Lavar
rigorosamente as mãos com água e sabão, sabão mesmo, esfregando as
unhas com uma escovinha antes de manusear as frutas, as hortaliças e a
água que serão fornecidos aos pássaros. As mãos devem ser lavadas,
sempre com água e sabão, antes e depois de manusear pássaros ou os
utensílios.
-Lavar
rigorosamente, com água e sabão, frutas e as hortaliças que serão
dadas aos pássaros e enxágua-las muito bem. Podem ser deixadas por
alguns minutos em solução água e vinagre ou de hipoclorito de sódio,
não se esquecendo de enxaguar copiosamente antes de dá-las aos
pássaros. Pela simplicidade, creio que o lavar as mãos e as frutas e
hortaliças já será uma grande ajuda no controle desses parasitas.
-Oferecer
aos pássaros somente água, no mínimo, filtrada. A água fervida seria
mais seguro, desde que seja mantida no fogo pelos menos durante 20
minutos após levantar a fervura. Os mesmo cuidados devem ser tomados
com a água para os banhos dos pássaros. Esfregar bem os bebedouros
para remover o biofilme líquido que fica na superfície e que pode
albergar muitas bactérias. O ideal seria ter jogos de dois bebedouros
para intercalá-los diariamente, possibilitando a secagem completa de
um dia para o outro do que não estiver sendo utilizado. É bom lembrar
que as Enterobacteriáceas, como as Escherichias, adoram uma água,
sendo mesmo conhecidas como bactérias dos meios líquidos e, para elas,
qualquer filmezinho líquido é um piscinão de Ramos. Lavar, se possível
de maneira individualizada, os utensílios também com água filtrada. Se
for possível, pelo menos uma vez por mês, ferver os utensílios
resistentes à fervura, principalmente as grades e as bandejas do fundo
da gaiola. Se for organizada uma rotina, mesmo nos criatórios maiores
as atividades profiláticas serão relativamente fáceis. Alguns
criadores que dão sementes germinadas aos seus pássaros devem ter
cuidado com a água usada para provocar a germinação. O mesmo cuidado
deve-se ter com a água usada para umedecer as farinhadas.
-A
manutenção higiênica do prédio onde está instalado o criatório deve
ser diária, evitando o acúmulo de dejetos e restos alimentares. Ter um
jogo de mangueira, pazinha de limpeza, baldes, botas, vassouras,
rodos, cestos de lixo, etc. somente para dentro do criatório. Se
existirem mais de um ambiente, um jogo para cada um. Verão que vale a
pena o investimento. O uso de detergentes e outros produtos de limpeza
bactericidas deve ser feito com orientação técnica. Aqui não cabem
improvisações. Ainda advogo o uso de vassouras de fogo tendo, é
lógico, cuidado para não colocar fogo no prédio e nos pássaros. Sempre
usei esse procedimento no canil e é tiro e queda. Nunca houve
problemas com parasitas externos e, de quebra, elimino alguns
parasitas internos que teimam em viver algum tempo fora do organismo.
É método de fácil execução, rápido e não tem ação residual como os
produtos químicos. Com técnica adequada não danificará paredes, desde
que não se fique com o fogo muito tempo num só lugar como estivesse
assando um churrasquinho, e, creio, poderá ser usada nas gaiolas de
arame vazias. Tendo-se o cuidado de tirar os pássaros do ambiente,
isolando-se as partes combustíveis das instalações, evitando-se a
presença de líquidos inflamáveis, etc., o método é seguro. Aconselho
procurar informações com alguém que já tenha alguma experiência para
não cometer erros de principiante.
-Tratar
as fêmeas com Escherichia é essencialíssimo pela possibilidade delas
infectarem verticalmente os filhotes.
-Tratar
os machos galadores infectados, pois, por ser comum usá-los com várias
fêmeas (poligamia), poderão contaminar o plantel numa proporção
geométrica. Não tenho qualquer dado sobre o assunto, mas seria
esperada maior possibilidade de contaminação dos machos, devido às
grandes aberturas do bico durante os cantos, pela poeira contaminada.
-Manter
em observação e isolados todos os filhotes nascidos de mãe e/ou pai
contaminados. Os gaiolões com muitos filhotes funcionariam como
creches ampliando a disseminação da bactéria.
-Não caia
naquela de dar antibióticos com finalidade profilática. São muito
poucos os casos em que o uso profilático de antibióticos tem valor
comprovado. E a Escherichia coli não é um deles. Fazendo isso você
estará criando cepas resistentes da Escherichia, um problema para a
sua própria família e para os seus pássaros. Cepas resistentes de uma
bactéria que se propaga facilmente num canaril são pragas de sogra (só
um xiste, porque a minha era ótima, não tenho queixas).
-Muito
cuidado com as fezes das aves. O papel do fundo da gaiola deve ser
trocado diariamente. O costume de colocar várias camadas de papel não
é bom, pois, o filtrado da parte líquida fecal pode levar os parasitas
para a folha de baixo (lembrar que estamos lidando com seres
microscópicos). Deve ser usada uma folha de papel e a bandeja deve ser
limpa diariamente e colocada ao sol (para isso, seria bom ter, pelo
menos, duas bandejas por gaiola). Individualizar as bandejas para
evitar usar bandeja usada em gaiola de pássaro contaminado em a gaiola
de pássaro não contaminado, criando, assim, condições para
disseminação da infecção pelo criatório. Se você usa areia na bandeja,
tenha muito cuidado, pois, se não houver troca constante e higiene
impecável, será um meio propício para manutenção dos parasitas.
-Muito
cuidado com as gaiolas usadas para manter os machos ou levá-los aos
torneios. Como ficam a maior parte do tempo fora do criatório, têm
maiores possibilidades de ser depósitos de parasitas. São feitas de
madeira, com muitos detalhes e têm muitas saliências e reentrâncias
que facilitam a vida dos parasitas e dificultam higienizá-las. E, na
maioria das vezes, não possuem grade separando a bandeja dos pássaros
como acontece com as gaiolas de criação. Creio que, num futuro
próximo, poderão ser substituídas por gaiolas feitas somente de arame.
-As
vasilhas contendo sementes, farinhadas, minerais e água devem ser
colocadas de modo a evitar que sejam atingidas pelos jatos
evacuatórios dos pássaros. Inspecioná-las diariamente e, se estiverem
sujas com excrementos, desprezar o conteúdo e higienizá-las.
-Muito
cuidado com os poleiros. Devem ser colocados de maneira que não possam
ser sujos pelas fezes, pois, pelo hábito das aves limparem o bico
neles após alimentarem-se, a contaminação será fácil.
-Cuidado
especial com pássaros trazidos de fora do canaril, mesmo que seja
somente para uma galadinha. Fazer quarentena nem sempre é praticável.
Se o galador vier de canaril que mantenha boas condições higiênicas
tudo fica mais fácil. Seria ótimo os donos dos bons pássaros galadores
manterem os pássaros em ótimas condições de higiene física, social e
até mental, pois, eles podem representar um boa fonte de renda para
abater nas despesas do criatório.
-Com as
aves adquiridas para compor o plantel a quarentena é obrigatória, a
não ser que venham de criatório que mantenha rígidas condições de
controle sanitário do plantel. Creio que a quarentena de três semanas
seja suficiente para a maioria das doenças infecciosas. Não trazer o
pássaro em gaiolas do criatório de onde o adquiriu. Manter o pássaro
entrante fora das instalações que albergam o plantel. O ideal seria
uma pessoa para cuidar somente dele e que não tivesse acesso ao
criatório. Se não, usar luvas ou lavar rigorosamente as mãos, com água
e sabão, após o trato e cuidados com os utensílios da ave em
quarentena. Todos os utensílios, produtos alimentares, vassouras,
pazinhas, cestos de lixo, etc. devem ser mantidos separadamente dos
usados para o plantel. Ponto de água para lavar os utensílios
separado. Muito cuidado com os excrementos. A quarentena deve ser para
valer ou nem vale a pena ser feita.
-Cuidado
com os machos que vão a torneios ou a outros criatórios para
coberturas. Seria interessante ter uma gaiola somente para torneios e
outra para a manutenção do pássaro no criatório. Um apresentador de
cães do nosso canil colocava nas guias dos cães que iam às exposições
uma fitinha vermelha do Senhor do Bonfim; foi bom porque nenhum cão
voltou contaminado das expos. Cuidado porque cavalo não desce escadas,
como dizia o famoso colunista social carioca.
-Levar
água filtrada e/ou fervida quando for a torneios, evitando dar ao
pássaro água da torneira sem as condições higiênicas seguidas no
criatório. Se esquecer, é preferível dar água de garrafa tipo natural.
Nem para o banho deve ser usada água do local dos torneios.
-Cuidado
com a água do banho dos pássaros. Deve ser, pelo menos, filtrada e,
sempre que possível, fervida. Tirar a vasilha logo que o pássaro
terminar o banho.
-Algumas
vezes os parasitas podem ser trazidos para o criatório pelas patas de
pássaros, como os pardais, ou das moscas. Telar as janelas, portas e
as aberturas para a ventilação é medida heróica. Não deixar lixo ou
restos de comida expostos é essencial porque eles atraem pássaros,
moscas e predadores, inclusive ratos. Muitas plantas também são
atrativos.
-E sol,
amigos, pois, onde entra o sol não entra o médico, ou o veterinário,
como dizia minha avó. Locais escuros, muito quentes e úmidos jogam
para os bandidos.
As
medidas profiláticas são econômicas e, tornadas rotinas, de fácil
execução. Servem também para evitar muitas outras doenças que
infernizam os criadores, como as determinadas por outras bactérias
intestinais (Salmonella, Yersinia e Campylobacter) e pelos
protozoários intestinais.
RUA JOAQUIM DO PRADO, 49.
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