BOLETIM DO CRIADOURO CAMPO DAS CAVIÚNAS
Nº 10 DEZEMBRO DE 2003
REDATOR: Dr. JOSÉ CARLOS PEREIRA
RUA JOAQUIM DO PRADO, 49. CRUZEIRO/SP. TELEFAX 0xx12
31443590
Drjosecarlos2000@aol.com
CHLAMYDIA, AGENTE DA PSITACOSE
São bactérias de vida intracelular obrigatória. Interessante que, de
início, essas bactérias foram confundidas com vírus ou com Rikettsias
sendo denominadas
Miyagawanella
ornithosis, Bedsonia ou até Neo-Rikettsia.
Todos os membros do gênero possuem DNA e RNA, além de ribossomos
próprios similares aos encontrados nas bactérias Gram negativas, são
capazes de sintetizar algumas proteínas, incluindo enzimas, possuem
parede celular, membranas interna e externa e são resistentes às
penicilinas por não terem proteínas receptoras a elas. Os seus genomas
são muito pequenos e apenas as espécies C. trachomatis e psittaci
possuem plasmídeos (molécula de ácido desoxirribonucleico, de forma
circular, não integrada ao cromossomo bacteriano capaz de
auto-replicação). Como não são capazes de gerar adenosina trifosfato
(ATP) e guanidina tri-fosfato (GTP), podem ser consideradas parasitas
energéticos das células. Têm ciclo de desenvolvimento muito
interessante: a-Uma forma extracelular, o corpo elementar, com
0.3 micrômetro de diâmetro, inativa metabolicamente e infecciosa.
Adere à superfície da célula hospedeira por força eletrostática (a
proteína da membrana externa da bactéria, conhecida por MOMP, reduz a
força eletrostática entre a células hospedeira e os corpos
elementares) ou ligando-se a proteínas receptoras específicas.
Penetram na célula por endocitose (processo de ingestão de material
pela célula) e, após 9 a 12 horas, diferenciam-se na forma
intracelular. Podem viver curtos períodos de tempo fora da célula, o
que, favorece os estudos sorológicos e b-Uma forma intracelular,
o corpo reticulado, metabolicamente ativa e não infecciosa. Dividem-se
por fissão binária dando origem às típicas inclusões citoplasmáticas.
Enquanto se multiplicam no interior celular, antígenos da Chlamidia,
incluindo a MOMP, situam-se na membrana da celular atraindo células de
defesa do hospedeiro. Após 36 horas diferenciam-se na forma
extracelular, sendo eliminadas do interior da célula hospedeira por
destruição da mesma (citólise) ou por exocitose ou extrusão. Além dos
macrófagos, a C. pneumoniae pode se replicar dentro de células
musculares lisas e endotélio (camada de células que reveste a
superfície interna dos vasos e do coração) transformando, em 24 horas,
essas células em células espumosas (FOAM) características das placas
de ateroma. Essa capacidade de multiplicação em células endoteliais e
mononucleares favorece a entrada na corrente sangüínea, com a
conseqüente disseminação a partir do sistema respiratório. O ciclo
completo de vida dura de 48 até 72 horas. Esse processo explica a
capacidade dessas bactérias de produzirem infecções prolongadas e
geralmente sub-clínicas. A Chlamydia se reproduz dentro dos macrófagos
(células de defesa capazes de englobar no seu protoplasma partículas
sólidas, principalmente microorganismos) e pode permanecer
assintomática por longos períodos até ser reatividada pela queda de
resistência do hospedeiro ou co-infeção por outra bactéria.
As Chlamydias apresentam a capacidade de reduzir a sua taxa
metabólica, mantendo-se em estado de latência, bem provavelmente em
comum com a própria taxa metabólica da célula parasitada, o que,
explicaria, pelo menos em parte, a resistência a alguns antibióticos e
a manutenção de infecção persistente. Essas formas sub-clínicas
persistentes também poderiam ser explicadas pela infecção de camadas
epiteliais mais profundas, com clareamento das mais superficiais e
pelo aparecimento de cepas com desenvolvimento incompleto.
Hoje são
conhecidas quatro espécies de Chlamydia: C. trachomatis, C. pneumoniae
( primeiro conhecida como agente TWAR, Taiwan acute respiratory, desde
1986), C. psittaci, as três capazes de infectar os humanos, e C.
pecorum, descrita em 1992 infectando gado e ovelhas e sem comprovação
de parasitar os humanos. Todas elas são Gram negativas (o método
descrito, em 1884, pelo bacteriologista H.C.J. Gram é dos mais
valiosos para os laboratórios. Parte do princípio de que algumas
bactérias tratadas com corantes derivados da anilina e depois pelo
soluto de lugol fixam o corante, sendo chamadas Gram positivas, e
outras não fixam o corante, as Gram negativas). A C. pneumoniae foi
isolada em 1986, mas estudos retrospectivos mostram que foi
responsável por vários surtos epidêmicos já nos anos 50. A C.
trachomatis é subdividida em dois biovares (linfogranuloma venéreo e
trachoma, responsável pelos quadros oculogenitais não determinados
pelo primeiro) que, apesar de terem DNA idênticos, diferem-se nas
características de crescimento e de virulência tanto nas cultuas de
tecidos como em animais. Modernamente, usando-se anticorpos
monoclonais e seqüenciando nucleotídeos de proteína da membrana
externa, foram descritos 20 serotipos da C. trachomatis, havendo
serovares específicos para o tracoma, para o linfogranuloma venéreo,
com os quadros sexualmente transmitidos e para as infecções
perinatais.
Quadros
clínicos determinados pela C. trachomatis:
Trachoma.
É a causa capaz de ser prevenida mais importante de cegueira em todo
o mundo, sendo endêmica no Oriente Médio, no sudeste asiático e entre
os índios Navajos norte-americanos; estima-se em mais de 20 milhões de
cegueira no mundo determinada pelo trachoma. A infecção dissemina-se
olho a olho, sendo as moscas excelentes vetores. Causa conjuntivite
crônica ou recorrente que podem levar às úlceras da córnea
determinadas por traumatismos, cicatrizes e cegueira. A pobreza e a
falta de saneamento básico são outros fatores de disseminação.
Infecções genitais em adultos e adolescentes.
Sexualmente transmissível, podendo, em alguns lugares norte-americanos
ser responsável até por metade das infecções não gonocócica da uretra
(as uretrites gonocócicas, a gonorréia, são as mais comuns). Nos
Estados Unidos há locais onde de 2 a 35% das mulheres sexualmente
ativas e até 20% das adolescentes estão contaminadas. Nos EEUU, o pico
de incidência das infecções sexualmente transmitidas situa-se entre os
treze e início dos anos vinte de idade. Nas jovens a infecção das
trompas pode levar à formação de cicatrizes e obstruções com
conseqüentes esterilidades. É a principal causa de epididimite
(inflamação do epidídimo, órgão inicial dos canais vetores dos
testículos situado na parte superior dos mesmos). É a causa bacteriana
mais comum de doenças sexualmente transmitidas nos EE, estimando-se
perto de 5 milhões de casos anualmente. É de 4 bilhões de dólares
anuais o gasto com o tratamento da doença inflamatória pélvica, da
infertilidade e da gravidez ectópica determinadas pela Chlamídia,
ficando em segundo lugar entre as doenças sexualmente transmitidas,
somente sendo ultrapassada pela AIDS. As cicatrizes da infecção das
trompas de Falópio pela C. tachomatis estão entre as causas mais
comuns de infertilidade. A artrite reativa, quadro inflamatório
poliarticular periférico assimétrico e das articulações sacro-ilíacas,
que aparece 7 a 14 dias após infecção urogenital pela C. trachomatis,
também pode ser encontrada em outras doenças como salmonelose,
shigelose, yersiniose e infecções pelo parvovírus B19, causador do
eritema infeccioso; quando esses sinais articulares são acompanhados
por inflamação de estruturas oculares (conjuntivite, uveíte ou irite),
da pele (descamação da sola dos pés e palmas das mãos) e da genitália
(balanite, uretrite) constituem o síndrome de Reiter.
Infecções perinatais.
Nos Estados Unidos até 30% das gestantes podem ter infecção do cérvix
uterino, sendo que a metade pode transmitir a doença aos seus filhos
durante o parto se a bactéria estiver ativa, sendo a principal causa
de conjuntivite neonatal. Os recém-nascidos também podem apresentar
pneumonia, vaginites e infecções no reto.
Infecções em crianças maiores.
Não há um quadro clínico específico, mas infecções no reto ou vagina
em crianças pré-puberais podem levar à suspeição de abuso sexual.
Linfogranuloma venéreo.
Doença sistêmica, sexualmente transmitida (podendo também ser
transmitida por contato pessoal não sexual, fomites ou acidentes
laboratoriais) determinada por alguns serotipos de C. trachomatis. A
lesão típica começa com pápula, vesícula ou úlcera de bordas moles de
curta duração nos genitais (pênis no homem e nos pequenos e grandes
lábios, região posterior da vagina e clitóris na mulher); essas lesões
iniciais são vistas em somente um terço dos homens e raramente nas
mulheres. Outros sinais são o aumento de gânglios regionais,
dolorosos, que amolecem e drenam (vazam), febre e dores musculares e
de cabeça, podendo evoluir para quadros graves de destruição uretral e
constrições retais.
A
Chlamydia pneumoniae foi primeiramente isolada durante os anos 60
e, em 1978, na Finlândia, foi caracterizada pela primeira vez como
causadora de surtos de pneumonia. Até hoje não foram descritos
hospedeiros entre os animais, ficando caracterizada como um patógeno
primário das vias respiratórias humanas. Em alguns países é
responsável por 20% das pneumonias adquiridas na comunidade pelas
crianças. Algumas vezes pode haver coinfecção com o Mycoplasma
pneumoniae. O quadro de pneumonia pode ser acompanhado de febre, mal
estar, dor de cabeça, tosse e, muito comumente, de faringite. Estudos
sorológicos mostraram, em 1988, a associação entre infecção pela C.
pneumoniae e aterosclerose (pô, mano, em 1908, dois anos antes da
fundação do Corinthians, William Osler já falava da associação de
infecções com aterosclerose. Não à toa recebeu o título de Sir); há
pouco tempo C. pneumoniae viáveis foram isoladas de placas
ateroscleróticas de coronárias e artérias carótidas. Eta ferro, essa
Medicina é mesmo como o amor: nem sempre e nem jamais! Há um grupo de
proteínas, chamadas proteínas de choque térmico (HSP), que atuam na
proteção das células do organismo contra estresses como infecções,
estresses mecânicos ou altas temperaturas; todas as bactérias possuem
HSP capazes de estimular o organismo do hospedeiro a produzir
anticorpos contra a HSPS humana, parecendo ser esta a participação da
C. pneumoniae na aterosclerose. Os anticorpos produzidos contra a
HSP60 das Chlamídias explicariam as infecções crônicas, a doença
inflamatória pélvica e a infertilidade tubária. Os indivíduos
positivos para a presença dos produtos do gene HLA-B27 seriam mais
propensos a essas complicações. O parasita pode ser isolado de cultura
de tecidos (parede posterior da nasofaringe), do escarro, da secreção
da garganta, do lavado broncoalveolar e do fluido pleural.
A
Chlamydia psittaci, nas suas diversas espécies, infecta muitas
espécies de aves (mais de 140) e mamíferos. Na verdade é uma
antropozoonose porque pode ser transmitida não só ao homem como a
outros mamíferos como vacas/bois, cervídeos, cavalos e ovelhas.
Determina
a psitacose, quando atinge os psitacídeos, e ornitose quando atinge
outras espécies de aves, mas, genericamente, prefere-se o termo
universal de psitacose. A psitacose foi descrita pela primeira vez em
1897, por Ritter, na Suíça, estudando uma família de importadores de
psitacídeos. Qualquer espécie de aves pode albergar a C. psittaci,
embora seja mais comum nos psitacídeos. Além dos psitacídeos, foram
descritos casos da doença humana adquirida de pombos, perus, frangos,
patos e muitos outros pássaros. Outros mamíferos, como gato, cabra,
gado e ovelha podem ser infectados e desenvolver a doença. Somente 10%
do seu DNA tem homologia com o da C. trachomatis. Diferentemente da C.
trachomatis, a C. psittaci não possui glicogênio nas inclusões, as
quais são também morfologicamente diferentes. Possui, pelo menos,
cinco biovares. O biovar das aves possui, pelo menos, quatro
sorotipos, determinados por anticorpos monoclonais, sendo o psittacine
e turkey os mais importantes nos EEUU. De 1975 a 1984 foram
notificados 1136 casos de psitacose nos EEUU, com 8 mortes; setenta
por cento desses casos tinham como fonte aves de gaiola (pet caged
birds). É doença com características profissionais atingindo
principalmente criadores ou amantes dos pássaros, taxidermistas,
veterinários, trabalhadores em zoológicos, empregados de pet shop,
trabalhadores em criações de aves e os dedicados aos pombos. Nas
últimas duas décadas aumentaram os surtos entre pessoas que trabalham
em fábricas processadoras de carcaças de aves, como as de perus. As
Chlamydias podem ser encontradas nas secreções nasais, nas excreções,
nos tecidos e nas penas dos pássaros portadores da doença. A doença é
relativamente comum na Inglaterra, onde os periquitos são muito
apreciados como aves domésticas e as restrições às importações foram
abrandadas. As rotas primárias de infecção são a inalação de aerossóis
fecais, a poeira, como a encontrada nas penas, contendo restos fecais
e secreções de animais infectados.
Já foram
descritos casos de infecções humanas adquiridas por picadas de aves de
estimação. Poucos minutos são necessários para o homem adquirir a
infecção dentro de um ambiente onde estava ave infectada. Tanto as
aves doentes como as infectadas e aparentemente sadias podem
transmitir a doença ao homem. Aves recuperadas da doença podem
continuar a transmitir a bactéria durante meses. Já foi descrita
doença símile à psitacose transmitida entre pessoal de hospitais,
parecendo ser uma cepa humana muito mais virulenta do que a aviária.
Ainda não foi descrito qualquer caso de doença adquirida pela ingestão
de carne de frango.
A C.
psittaci penetra no organismo pelo trato respiratório alto,
dissemina-se pela corrente sangüínea e, algumas vezes, localiza-se no
alvéolo pulmonar (sacos aéreos onde se realizam as trocas gasosas com
o sangue) e nas células do retículoendotélio (células dispersas pelos
órgãos e relacionadas com a defesa do organismo) do baço e do fígado.
Diferentemente do que se pensava, a invasão dos pulmões não é direta e
sim através da corrente sangüínea. Há inflamação com predomínio dos
linfocitos tanto nas superfícies respiratórias como nos espaços entre
as células (espaços intersticiais), os quais, tornam-se edemaciados
(inchados), espessos, necróticos (mortos) e, algumas vezes,
hemorrágicos. Essas lesões não são patognomônicas (características
capazes de diferenciar uma doença das outras), a não ser quando surgem
no citoplasma das células inclusões características chamadas de corpos
de Levinthal-Coles-Lillie. Interessante é que o revestimento dos
brônquios e bronquíolos permanecem intactos.
No homem
o início da psitacose é muito variável podendo, após incubação entre
uma a duas semanas, surgir subitamente com febre alta com calafrios ou
gradualmente com febre ascendente dentro de uns 4 dias, sendo comum a
dor de cabeça. Predominam os sinais respiratórios: tosse seca ou com
catarro mucóide que pode conter sangue, dor torácica, falta de ar,
inflamação da pleura com ou sem derrame. Diferentemente de outras
pneumonias bacterianas, a psitacose pode apresentar características
das pneumonias não bacterianas (principalmente virais) com sinais
clínicos menos chamativos do que as imagens radiológicas fariam supor.
A dor de garganta, faringites e aumento dos gânglios cervicais mostram
acometimento das vias respiratórias superiores. O sangramento nasal
(epistaxe) e a fotofobia (aversão à luz) podem estar presentes, assim
como dores e rigidez musculares. Letargia, agitação, depressão mental,
insônia, desorientação, podendo chegar ao delírio e estupor nos casos
mais graves. Dor abdominal, diarréia ou prisão de ventre, vômitos,
náuseas e distensão abdominal mostram o acometimento gastrintestinal.
Em poucos casos surgem manchas róseas na pele chamadas de manchas de
Horder. A icterícia (amarelão da pele e mucosas) surge nos quadros
mais graves com extensas lesões do fígado. Tromboflebites também podem
aparecer nos casos graves. No coração podem surgir pericardite,
miocardite e endocardite. Nos casos não tratados a febre, contínua ou
remitente, pode persistir até por 21 dias, às vezes chegando a três
meses. As recaídas são raras e a imunidade à reinfecção parece ser
permanente. A doença pode ser intermitente ou contínua durante semanas
ou meses.
Nas
aves, a ornitose, que atinge os canários, geralmente é mais
benigna do que a psitacose. Calcula-se, e acho que é um cálculo por
baixo, que 1% dos psitacídeos selvagens sejam portadores da C.
psittaci, número que pode cegar aos assustadores 25 a 30% nos pombos
que vivem nas cidades. Os filhotes são mais predispostos à doença.
Como nos mamíferos, os principais sinais da doença nas aves revelam o
acometimento das vias respiratórias e aparelho digestivo. Há
corrimento nasal ou ocular, com fechamento de uma ou, o mais
freqüente, das duas pálpebras, dispnéia (falta de ar), penas eriçadas,
falta de apetite, sonolência, diarréia com fezes verdes ou
acinzentadas e hepatite. Nos quadros mais graves pode haver
convulsão. Esses sinais surgem de forma aguda, subaguda ou crônica. A
forma crônica representa um perigo para a criação, pois, muitas vezes,
evolui com poucos sintomas, mas com poder de transmissão para as
outras aves. A morbidade (relação entre os indivíduos sãos e os
doentes) costuma ser alta, mas proporcionalmente a mortalidade é
menor. Na necropsia geralmente são encontrados cadáveres de aves muito
emagrecidas, com depósito mucofibrinoso (a fibrina é proteína
esbranquiçada que faz parte essencial do coágulo sanguíneo) muito rico
em Chlamydias e bactérias secundárias (pasteurellas, salmonellas,
colibacilos, mycoplasma, etc). Nos sacos aéreos é comum a presença de
pus amarelo ou amarelo-acinzentado. Os rins estão aumentados por conta
de grande tumefação. O fígado, aumentado de volume e de cor
amarelo-ocre, apresenta grande número de focos necróticos; o baço
também é visto aumentado, mas sem lesões específicas. No intestino
aparecem sinais de enterite com zonas hemorrágicas.
O diagnóstico laboratorial envolve:
a-
Cultura celular bacteriana.
É um método já clássico no estudo das Chlamídias, sendo o material
semeado em meio de cultura de células, identificando-se as inclusões
intracelulares pela coloração pelo iodo ou pela técnica de May
Grunwald-Giemsa. Hoje o seu uso praticamente está limitado aos
laboratórios de pesquisas por ser trabalhoso;
b-
Detecção de antígenos.
Representada pelos testes de imunofluorescência e imunoenzimáticos.
Embora fossem ultrapassados pelas técnicas moleculares, ainda são
usados pelo baixo custo e praticidade;
c-
Sorologia. Somente ganha
maior importância se for possível diferenciar entre infecção
persistente e infecção antiga com anticorpos persistentes. Para ter
mais precisão exige duas dosagens de IgM, IgG e IgA com intervalo de 4
a 6 semanas entre as colheitas do sangue. O teste de fixação do
complemento é mais específico para detectar todas as espécies do
gênero Chlamidia. Dos testes sorológicos alguns estudiosos têm
predileção pelo microimunofluorescência (MIF), que é sensível e
espécie específico.
d-
Testes moleculares. A reação
em cadeia da polimerase, o famoso PCR, tem como base a amplificação da
molécula de ADN, usando a enzima polimerase, facilitando o seu estudo.
O PCR permite que o DNA de uma região selecionada do genoma seja
ampliada um bilhão de vezes, desde que, pelo menos, parte da sua
seqüência de nucleotídeos seja conhecida. É um exame de uma fineza
técnica impressionante. Hoje também está disponível a reação em cadeia
da ligase (LCR), tecnicamente muito parecida ao PCR, acrescentando-se
à polimerase mais uma enzima, a ligase, o que, dá, ao processo
sensibilidade e especificidade elevadas. Outra técnica que vem
ganhando corpo é a captura híbrida, baseado na captura de material
genético usando anticorpos anticomplexo sondas de RNA/DNA conjugados
com a fosfatase alcalina; tem como vantagens sobre as outras técnicas
moleculares o baixo risco de contaminação com DNA estranho, a rapidez
e facilidade de execução.
No
tratamento das Chlamydias ainda não há consenso quanto aos
antibióticos a ser usados, a duração do tratamento e as doses diárias.
Levando em conta as características dessas bactérias, o antibiótico
deve permitir aderência ao tratamento, talvez deva ser usado por tempo
maior do que a maioria dos esquemas preconizados atualmente e, muito
importante, ser lipossolúvel para permitir altas concentrações dentro
das células onde se encontram os parasitas. Os macrolídeos,
antibióticos bacteriostáticos (grosseiramente para facilitar o
entendimento, os antibióticos podem ser divididos em bactericidas, que
matam os parasitas sensíveis e dependem desses estarem em fase de
crescimento e bacteriostáticos, que somente impedem o crescimento do
parasita dando oportunidade para as defesas orgânicas. Um erro comum,
muito comum no passado, era associar um bactericida com um
bacteriostático. Ora, se um age no parasita em crescimento e o outro
impede esse crescimento, eles se anulariam. E eu já vi passarinheiro
usando essa associação!), por atingirem concentrações altas nos
tecidos, taxa alta de ligação às proteínas do sangue e meia-vida longa
constituem uma boa opção. Atualmente a eritromicina e a azitromicina
são as preferidas, ficando a claritromicina como boa opção. Outro
antibiótico indicado é a doxiciclina, da família das tetraciclinas,
também bacteriostático, com as mesmas propriedades dos macrolídeos,
inclusive uma ótima percentagem (praticamente 95%) de ligação às
proteínas sangüíneas. Já há autores preconizando também as quinolonas
como o ofloxacin. Mas, é sempre bom
lembrar, tratamento é campo do veterinário que conheça bem o assunto.
Se
tratamento é prerrogativa do veterinário, fazer a profilaxia da
doença, impedindo que ela entre no criadouro é dever e obrigação do
criador. Por ser a psitacose doença de diagnóstico não muito fácil,
exigindo perspicácia clínica do veterinário e exames muito caros, de
grande transmissibilidade mesmo por aves aparentemente sãs e por
exigir tratamento longo todo o cuidado é pouco com a higiene do
criadouro. Os cuidados básicos são basicamente os mesmos usados na
profilaxia do Mycoplasma.
-
A manutenção higiênica do prédio onde está instalado o
criatório deve ser diária, evitando o acúmulo de dejetos e restos
alimentares. A varredura deve ser suave para evitar levantar poeira e
esparramar secreções. As excreções do hospedeiro protegem os parasitas
da ação dos desinfetantes e devem ser removidas ante do uso dos
mesmos. Ter um jogo de mangueira, pazinha de limpeza, baldes, botas,
vassouras, rodos, cestos de lixo, etc. somente para dentro do
criatório. Se existirem mais de um ambiente, um jogo para cada um.
Verão que vale a pena o investimento. O uso de detergentes e outros
produtos de limpeza bactericidas deve ser feito com orientação
técnica. A C. psittaci é muito sensível à maioria dos desinfetantes e
detergentes domésticos, incluindo o álcool a 70%, lisol a 1% e
diluição de alvejantes. Aqui não cabem improvisações. Ainda advogo o
uso de vassouras de fogo tendo, é lógico, cuidado para não colocar
fogo no prédio e nos pássaros. Sempre usei esse procedimento no canil
e é tiro e queda. Nunca houve problemas com parasitas externos e, de
quebra, elimino alguns parasitas internos que teimam em viver algum
tempo fora do organismo. É método de fácil execução, rápido e não tem
ação residual como os produtos químicos. Com técnica adequada não
danificará paredes, desde que não se fique com o fogo muito tempo num
só lugar como estivesse assando um churrasquinho, e, creio, poderá ser
usada nas gaiolas de arame vazias. Tendo-se o cuidado de tirar os
pássaros do ambiente, isolando-se as partes combustíveis das
instalações, evitando-se a presença de líquidos inflamáveis, etc., o
método é seguro. Aconselho procurar informações com alguém que já
tenha alguma experiência para não cometer erros de principiante.
Lavar, se possível de maneira individualizada, os utensílios também
com água filtrada. Se for possível, pelo menos uma vez por mês, ferver
os utensílios resistentes à fervura, principalmente as grades e as
bandejas do fundo da gaiola. Se for organizada uma rotina, mesmo nos
criatórios maiores as atividades profiláticas serão relativamente
fáceis.
-
Manter em observação e isolados todos os filhotes
nascidos de mãe e/ou pai contaminados. Os gaiolões com muitos filhotes
funcionariam como creches ampliando a disseminação da bactéria. A
superpopulação é um fator poderoso na transmissão e manutenção da C.
psittaci dentro de um criadouro. Deve ser evitada a chamada China
alada.
-
Afastar os fatores que favorecem a instalação da doença no criadouro:
mudanças bruscas de temperatura, falta de
ventilação e iluminação adequadas, excesso de transporte dos pássaros,
falta de higiene e contato com aves soltas como pardais e,
principalmente, pombos. Enfim, todos os fatores estressantes podem ser
predisponentes.
-
Não caia naquela de dar antibióticos com finalidade
profilática. São muito poucos os casos em que o uso profilático de
antibióticos tem valor comprovado. E a infecção pela C. psittaci não é
um deles. Fazendo isso você estará criando cepas resistentes da
bactéria, um problema para a sua própria família e para os seus
pássaros. Cepas resistentes de uma bactéria que se propaga facilmente
num canaril são pragas de sogra (só um xiste, porque a minha era
ótima). Todas as aves suspeitas devem ser examinadas por veterinário
e, se for o caso, tratadas com tetraciclinas por, pelo menos, 45 dias
e isoladas. Aves suspeitas que tenham morrido devem se encaminhadas
para exames laboratoriais, em recipiente lacrado e conservadas com
gelo seco. Todas as gaiolas e as áreas ocupadas por elas devem ser
completamente desinfetadas e aeradas antes de serem reutilizadas
-
Cuidado especial com pássaros trazidos de fora do canaril, mesmo que
seja somente para uma galadinha. Fazer quarentena nem
sempre é praticável. Se o galador vier de canaril que mantenha boas
condições higiênicas tudo fica mais fácil. Seria ótimo os donos dos
bons pássaros galadores manterem os pássaros em ótimas condições de
higiene física, social e até mental, pois, eles podem representar um
boa fonte de renda para abater nas despesas do criatório. Pombos perto
do criadouro nem pensar, assim como os pardais. Não só
pelos problemas legais, como pela segurança
biológica do seu criadouro, jamais introduza no plantel aves caçadas.
-
Com as aves vindas de outros criadouros a quarentena é
obrigatória, a não ser que venham de criatório que mantenha rígidas
condições de controle sanitário do plantel. Creio que a quarentena de
três semanas seja suficiente para a maioria das doenças infecciosas.
Não trazer o pássaro em gaiolas do criatório de onde o adquiriu.
Manter o pássaro entrante fora das instalações que albergam o plantel.
O ideal seria uma pessoa para cuidar somente dele e que não tivesse
acesso ao criatório. Se não, usar luvas ou lavar rigorosamente as
mãos, com água e sabão, após o trato e cuidados com os utensílios da
ave em quarentena. Todos os utensílios, produtos alimentares,
vassouras, pazinhas, cestos de lixo, etc. devem ser mantidos
separadamente dos usados para o plantel. Ponto de água para lavar os
utensílios separados. Muito cuidado com os excrementos. A quarentena
deve ser para valer ou nem vale a pena ser feita.
Alguns
cuidados são universais e imprescindíveis em qualquer esquema
profilático:
- Lavar
rigorosamente as mãos com água e sabão, sabão mesmo, esfregando as
unhas com uma escovinha antes de manusear as frutas, as hortaliças e a
água que serão fornecidos aos pássaros. As mãos devem ser lavadas,
sempre com água e sabão, antes e depois de manusear pássaros ou os
utensílios.
- Lavar
rigorosamente, com água e sabão, frutas e as hortaliças que serão
dadas aos pássaros e enxágua-las muito bem. Podem ser deixadas por
alguns minutos em solução de água e vinagre ou de hipoclorito de
sódio, não se esquecendo de enxaguar copiosamente antes de dá-las aos
pássaros. Pela simplicidade creio que o lavar as mãos, as frutas e as
hortaliças já será uma grande ajuda no controle desses parasitas.
-
Oferecer aos pássaros somente água, no mínimo, filtrada. A água
fervida seria mais seguro, desde que seja mantida no fogo pelos menos
durante 20 minutos após levantar a fervura. Os mesmo cuidados devem
ser tomados com a água para os banhos dos pássaros. Esfregar bem os
bebedouros para remover o biofilme líquido que fica na superfície e
que pode albergar muitas bactérias. O ideal seria ter jogos de dois
bebedouros para intercalá-los diariamente, possibilitando a secagem
completa de um dia para o outro do que não estiver sendo utilizado.
- Muito cuidado
com as fezes das aves. O papel do fundo da gaiola deve ser trocado
diariamente. O costume de colocar várias camadas de papel não é bom,
pois, o filtrado da parte líquida fecal pode levar os parasitas para a
folha de baixo (lembrar que estamos lidando com seres microscópicos).
Deve ser usada uma folha de papel e a bandeja deve ser limpa
diariamente e colocada ao sol (para isso, seria bom ter, pelo menos,
duas bandejas por gaiola). Individualizar as bandejas para evitar usar
bandeja usada em gaiola de pássaro contaminado em a gaiola de pássaro
não contaminado, criando, assim, condições para disseminação da
infecção pelo criatório. Se você usa areia na bandeja, tenha muito
cuidado, pois, se não houver troca constante e higiene impecável, será
um meio propício para manutenção dos parasitas.
- Muito
cuidado com as gaiolas usadas para manter os machos ou levá-los aos
torneios. Como ficam a maior parte do tempo fora do criatório, têm
maiores possibilidades de ser depósitos de parasitas. São feitas de
madeira, com muitos detalhes e têm muitas saliências e reentrâncias
que facilitam a vida dos parasitas e dificultam higienizá-las. E, na
maioria das vezes, não possuem grade separando a bandeja dos pássaros
como acontece com as gaiolas de criação. Creio que, num futuro
próximo, poderão ser substituídas por gaiolas feitas somente de arame.
- As
vasilhas contendo sementes, farinhadas, minerais e água devem ser
colocadas de modo a evitar que sejam atingidas pelos jatos
evacuatórios dos pássaros. Inspecioná-las diariamente e, se estiverem
sujas com excrementos, desprezar o conteúdo e higienizá-las.
- Muito
cuidado com os poleiros. Devem ser colocados de maneira que não possam
ser sujos pelas fezes, pois, pelo hábito das aves limparem o bico
neles após alimentarem-se, a contaminação será fácil.
- Levar água
filtrada e/ou fervida quando for a torneios, evitando dar ao pássaro
água da torneira sem as condições higiênicas seguidas no criatório. Se
esquecer, é preferível dar água de garrafa tipo natural. Nem para o
banho deve ser usada água do local dos torneios.
- Cuidado
com a água do banho dos pássaros. Deve ser, pelo menos, filtrada e,
sempre que possível, fervida. Tirar a vasilha logo que o pássaro
terminar o banho.
-
Algumas vezes os parasitas podem ser trazidos para o
criatório pelas patas de pássaros, como os pardais, ou das moscas.
Telar as janelas, portas e as aberturas para a ventilação é medida
heróica. Não deixar lixo ou restos de comida expostos é essencial
porque eles atraem pássaros, moscas e predadores, inclusive ratos.
Muitas plantas também são atrativos para os pássaros soltos visitarem
o criadouro. - E sol, amigos, pois, onde entra o sol não entra o
médico, ou o veterinário, como dizia minha avó. Locais escuros, muito
quentes e úmidos jogam para os bandidos.