BOLETIM
DO CRIADOURO CAVIÚNAS
Núm. 20 março de 2006
Redator; DR. José Carlos Pereira
Rua Joaquim Do Prado, 49, cruzeiro SP. Telefax
012 31443590
drjosecarlos2000@uol.com.br
A
IMPORTÂNCIA DAS FÊMEAS NO CRIADOURO
Há alguns meses,
visitando um criadouro de curiós, observei que estavam vendendo
filhotes machos por 600 reais e as fêmeas por 150. E, como é uma
prática de diferença de valor comum entre machos e fêmeas nos
criadouros de pássaros nativos, diferente da realidade com a qual
convivi durante décadas de criador de cães pastores alemães, sendo
as fêmeas tão ou mais valorizadas do que os machos, resolvi
escrever alguma coisa mostrando a importância essencial das fêmeas
para a criação.
Como não tinha base
de criação de nativos suficiente para fornecer o material
necessário, optei por fazer a correlação com a criação dos
pastores alemães. Aproveitei o material que escrevi sobre a
evolução do cão pastor alemão, desde o primeiro animal registrado,
há mais de cem anos, até os tempos atuais, dando destaque às
fêmeas exponenciais que tiveram importância na evolução pastoreira.
E dessas, destaque todo especial para a legendária Palme
Wildsteiger Land. Na foto acima, Palme com o seu filho Uran
Wildsteiger Land, um dos mais importantes pastores de todos os
tempos, Eiko Kirschental, filho de Uran e outro ótimo animal, e
Yago Wildsteiger Land, filho de Eiko e excelente padreador,
mostrando uma linha sangüínea das melhores. José Carlos Pereira.
Já foi dito, e com muita propriedade, que um criadouro, de qualquer
que seja a espécie animal, depende essencialmente da qualidade das
suas fêmeas matrizes. Rápido e rasteiro: um criadouro é o que são
as suas fêmeas.
Como a criação dos pássaros nativos brasileiros não permite a busca
de um exemplo cabal e documentado disso, vou buscá-lo na criação do
cão pastor alemão à qual me dediquei por décadas.
O nome inquestionável da cadela exemplo? Palme Wildsteiger Land,
o ventre de onde se originaram as linhas de sangue que hoje
predominam na criação mundial do cão pastor alemão dito de estrutura
ou show.: Uran Wildsteiger Land e Quando v. Arminius.
Para um bom entendimento do que foi Palme para a criação pastoreira,
permitam-me um brevíssimo histórico, aliás, nem tão brevíssimo
assim, mas, vale a pena acompanhar.
Na região onde é hoje a Alemanha foram desenvolvidas raças de cães
pastores adaptadas ao clima e aos acidentes geográficos de cada
região. Claro que os pastores, durante os seus encontros festivos e
comerciais, jactavam-se das qualidades dos seus cães no trabalho.
Num processo de seleção determinado pelas necessidades foram
chegando a animais com comportamento e fenotipo cada vez mais
eficientes para as atividades pastoreiras.
No final do
século XIX, há mais de 110 anos, amigos passarinheiros,existiam 3
tipos bem definidos de cães pastores na região da Alemanha. Todos
muito inteligentes, atentos, rústicos e excelentes andadores. Além
da excelência para o trabalho, os tipos eram adaptados para as
condições climáticas e geográficas das regiões em que viviam. Os
cães das regiões mais planas do norte eram menores, mais ágeis e
trotadores de excelentes passadas, qualidades muito propícias para
acompanharem a movimentação mais rápida e com coberturas de
distâncias maiores dos rebanhos de ovelhas. No sul, região do
Württenberg, terras acidentadas determinadas pelo derramamento dos
Alpes, os cães pastores eram mais compactos, pesadões e com grande
vigor físico, aptos a acompanharem os rebanhos colinas acima ou
abaixo na busca das forrageiras. No centro da Alemanha, na
Francônia, um dos cinco ducados medievais, nas terras da atual
Baviera e com centro vital na cidade de Würzburg, a combinação das
duas geografias anteriores, os cães, peludos, eram uma mescla dos
outros dois tipos.
Notaram o detalhe do
gerenciamento da genética para produzir os tipos de animais
fenotipicamente adaptados às condições ambientais onde exerceriam as
suas atividades? Os mais argutos já devem estar pensando nos
fenótipos diferentes dos curiós, dos bicudos, dos trincas, dos
coleiras e, principalmente dos canários-da-terra, conforme as
regiões ocupadas por eles nesse nosso enorme país varonil. É por aí
mesmo.
Nesse cenário surgiu o
capitão de cavalaria alemão von Stephanitz com idéia de colocar os
cães pastores da Alemanha dentro de um só padrão. Com o tempo mais
disponível por estar nos seus últimos anos de caserna, a
determinação e a disciplina próprias dos militares e, não poderia
deixar de ser, o amor pelo trabalho executado pelos cães, Stephanitz
percorria, com vários amigos, as diversas regiões pastoreiras.
Aumentava os seus conhecimentos sobre os tipos de cães mais usados.
Sabia da existência de cães resultantes dos cruzamentos dos três
tipos predominantes e, olhos atentos, procurava um cão base para o
início do seu sonho. Interessante. Diferentemente dos amantes e
estudiosos dos cães que buscavam o resgate de algumas raças em vias
de desaparecimento, como o mastino napolitano, procurando raros
exemplares característicos das mesmas, Stephanitz, pelo contrário,
buscava um ou vários exemplares representativos da média de 3 tipos
de cães existentes em números apreciáveis. Não buscava resgatar uma
raça já bem definida e sim o somatório positivo de raças existentes.
Notem que, como todo
grande projeto, tudo nasce da cabeça de pessoas de início tidas como
sonhadoras e, porque não dizer, consideradas meio lelés da cuca.
Pensando bem, o projeto
de Stephanitz partia de uma situação bastante parecida com a vivida
pelos criadores dos pássaros nativos: qualificar, pela seleção,
espécie de animal já existente e tendo as qualidades procuradas.
Como muitas das grandes
descobertas da humanidade, o encontro do que procurava Stephanitz
foi ao acaso e fortuito. No 3 de abril de 1899, Stephanitz assistia
a uma exposição de todas as raças em Karlsruhe, cidade que hoje é
uma das principais sedes das Siegers (exposição anual e final alemã
onde são julgados e conferidos títulos aos cães pastores alemães,
machos e fêmeas, cujas qualidades fenotípicas, genotípicas e de
progênie serão de grande valia no desenvolvimento da criação
pastoreira mundial. Esses cães são vistos, julgados, selecionados,
avaliados, assim com as suas progênies, durante todo o ano nas
exposições municipais e estaduais, chegando a Sieger os mais aptos e
interessantes para a criação, tanto machos como fêmeas), inclusive
da Sieger do centenário da SV(a sociedade pastoreira alemã). Com ele
estava um dos amigos prediletos, Arthur Mayer, participante dos
sonhos do capitão de cavalaria e outro observador perspicaz de cães
do qual a história pastoreira pouco fala.
Um olho na pista e o
outro no que acontecia nos arredores, aliás, nos arredores muitas
vezes ocorre o mais importante, viram, próximo ao seu dono, um cão
amarelo e cinza, não muito grande e parecido com um lobo. Estava
ali de alegre, sendo um cão de trabalho e não de show. Antenas
ligadas, aproximaram-se, puxaram conversa com o dono do animal e,
pedindo para o animal dar uma andadinha, notaram que, mesmo sendo
muito forte, possuía movimentação ágil e grande firmeza de
ligamentos. Eureka, devem ter pensado os dois amigos. Putz, diriam
hoje os mais jovens, como a netona filósofa. Sabem aquela vontade de
adquirir um animal buscado há muito tempo? Uma verdadeira sangria
desatada, como dizia a minha avó?
Os amigos Taddei,
Lisandro, Ivan e Diego devem estar pensando: Por isso o JC vive
dizendo que, nem sempre, o melhor dos torneios está nas estacas e
sim nos arredores ou mesmo longe delas. Muitas vezes aquele
passarinho que você necessita para a evolução do seu plantel está na
casa de um conhecido, de um parente, naqueles rolinhos, naquelas
badernas de finais de semana, pendurado nas árvores existentes no
recinto dos torneios, na parede ou num gancho improvisado no bar ou
na gaiola portada por uma pessoa que está ali de alegre. Enfim, onde
menos se espera. E é aí que entra o tino e o conhecimento do criador
de verdade.
Uma vez estava com um amigo criador de pastores e, ao passarmos
por uma determinada rua, mandou parar o carro, desceu correndo,
conversou com uma senhora que estava passeando com uma cadela
pastora e voltou, todo contente, dizendo que a cadela era ótima,
tinha pedigree e voltaria para olhar o documento. Daí a alguns meses
estava com uma bela ninhada dessa cadela com um macho escolhido a
dedo. Portanto, se quiser ser um bom criador, mantenha um olho no
gato e o outro na sardinha.
Com muita conversa
(alemão também é bom de papo) os dois amigos convenceram o
proprietário a vender o animal. Enfim, igualzinho um rolinho
envolvendo passarinheiros. Interessante que, estando numa
exposição, o proprietário sempre deixou claro que o cão era
essencialmente de trabalho pastoril e não de exibição. Mal sabia que
Stephanitz e Mayer tinham como base dos seus projetos os animais de
trabalho. Volto a afirmar o conceito geral de trabalho. O pastor
originariamente é um cão de pastoreio. Por sua inteligência e
facilidade de treinamento tornou-se um animal versátil com múltiplos
usos, um deles como cão de proteção. Portanto, como os trabalhadores
nas indústrias mais modernas, o pastor alemão é um cão
multiprofissional. Modernoso como diria a minha neta. Creio que, se
assim fosse entendido, muitas brigas seriam evitadas entre os
advogados da estrutura e do trabalho.
Esse animal base
chamava-se Hektor Kinksheim, foi pago por Stephanitz e assumiu o
nome do seu canil passando a chamar-se Horand v. Grafrath.
Com Horand v. Grafrath
foi iniciado o tronco base de onde originam-se todos os cães
pastores alemães da atualidade.
Logo depois
que adquiriu Horand, von Stephanitz apresentou o primeiro padrão da
raça que imaginava e iniciou contatos para criar uma entidade que
coordenasse a criação e seleção dos animais tendo como base o padrão
estabelecido. Amigos, o primeiro padrão, elaborado pelo próprio
Stephanitz e o inseparável A. Mayer, surgiu em 1899, envolvendo
aspectos físicos e psíquicos adequados, e, até hoje, sofreu pequenas
modificações, sendo as últimas em 1976. Padrão, padrão, padrão...sem
isso qualquer seleção torna-se impossível.
Portanto, amigos
passarinheiros, sem padrão nada feito. Sem uma entidade que controle
a criação objetivando coordenar tanto a burocracia como a parte
técnica para aproximar a criação do padrão também nada feito. É
ficar no chove e não molha, escorregar na maionese, ficar olhando as
estrelas, triscar, patinar e não sair do lugar.
A criação do cão pastor
alemão, seguindo os preceitos de Stephanitz, considerado o pai da
raça, e partindo de Horand, foi tomada de gosto por um número cada
vez maior de criadores. Cães foram se destacando individualmente, as
exposições foram sendo sedimentadas, partindo das municipais,
passando pelas estaduais para chegar à exposição anual, a Sieger, as
linhas de sangue foram surgindo mostrando virtudes e defeitos dos
seus encadeamentos genéticos. Lá pela década dos anos 60, do século
XX, surgiram as quatro linhas de sangue principais que marcaram a
criação dos cães pastores de estrutura: Quanto Wienerau, Canto
Wienerau, Mutz Pelztierfarm e Marko Cellerland, cada uma delas com
características próprias preponderantes.
Observarão durante essa
história que as exposições dos pastores alemães na Alemanha visam
essencialmente a melhoria da criação. O cão individualmente a
serviço da criação e nunca o contrário. Não são exposições somente
para o expositor ganhar troféu premiador das qualidades do seu
animal. Se o cão não tiver progênie de valor, adeus viola.
Habituado a isso, quando vejo um bom pássaro num torneio sempre
penso: -Passará as qualidades à sua prole ou ficará por aí somente
ganhando troféus? E sempre pergunto, quem criou o pássaro e não quem
é o expositor; se o expositor for o próprio criador, melhor ainda.
Em 1968,
coerente com o grande desenvolvimento da raça na Europa e a
necessidade de manter as condições necessárias para a manutenção do
padrão da raça estabelecido e atualizado desde Stephanitz, foi
criada a União Européia de Clubes dos Cães Pastores Alemães, a EUSV.
A grande expansão da criação pastoreira nos outros continentes
exigiu a criação de uma entidade de união mundial, a WUSV (Welt
Union der Verein für Deutsche Schäferhunde), em 9 de setembro de
1974. Entidades fortes e representativas.
Nesse contexto
histórico devemos situar a evolução da criação pastoreira desde
Quanto-Canto-Mutz-Marko até Uran-Quando-Fedor e Cello.
Na evolução
nas linhas de sangue eu citava, em boletim do núcleo pastoreiro de
Cruzeiro, quatro animais dentre inúmeros outros: Valet Busecker
Schloss, Wilma Kisselchlucht, Sara Sonnenberg e Jalk Fohlenbrunnen.
Vamos nos ater
principalmente às duas fêmeas, pois, são as fêmeas os alvos
principais do nosso boletim.
Wilma Kisselschlucht.
Coloco essa magnífica cadela no mesmo patamar de Palme Wildsteiger
Land na evolução da criação pastoreira. Wilma, selecionada 2, talvez
por ter jarrete de vaca, era bem construída quando vista parada,
forte, com muito boas angulações dianteiras e traseiras, muito boas
proporções de peito, frente correta, seca, com boas passadas e forte
impulsão. Observarão que, sendo o padrão um ideal, sempre um
animal apresentará defeitos em relação a ele, cabendo ao criador
saber diminuir a importância desses defeitos na genética do seu
plantel e aproveitar as qualidades apresentados pelo animal.
Portanto, procurar um pássaro ideal, sem defeitos, é panacéia e
sonho de uma noite de verão. Felizmente, esses sonhos vivem povoando
a mente dos criadores e, isso, é o bom da coisa e o tempero para
sempre continuar a sua busca. O bom temperamento de Wilma era
qualificado por três trisavôs: Bodo Lierberg, Jalk Fohlenbrunnen e
Valet Busecker Schloss, cães historicamente muito valentes e
determinados. Apesar de fortemente influenciada pela linha B
Lierberg, pois seu pai, o VA Bredo Lichtburghof, filho de um cão que
foi exportado para a Inglaterra, Joll Bemholt, era neto paterno de
Bodo Lierberg, e por Valet, através da sua mãe, Ossi Kisselschlucht,
o seu fenótipo era mais próximo daquele da linha Jalk, seu bisavô
materno. Muitas das qualidades ou defeitos do seu pássaro deverão
ser buscados também mais além do que somente os seus pais. E foi
o caminho seguido pelos criadores sob a orientação técnica da SV,
evitando o uso de Wilma com descendentes da ninhada B Lierberg e
devendo ser explorada a linha Jalk. É amigo, nada acontece por
acaso...
Hoje sabemos que o cruzamento entre as linhas Quanto e Canto,
principalmente fêmeas Canto com machos Quanto, sempre deu samba.
Mamão com açúcar, como diriam os meus netos. Mas, até ser alcançado
esse estágio, outros caminhos foram seguidos.
Wilma foi coberta por
Canto Wienerau, seguindo a orientação de usá-la com animais que
tivessem Jalk na sua ascendência, apesar de ambos terem deficiências
nos posteriores, dando origem a ninhada F Konigsbruch, nascida em
29/12/1971, constituída por três machos (Falk, Fant e Faruk) e três
fêmeas (Fahra, Fanta e a SchH 1 e V Flora) e forte consangüinidade
em Jalk 3-4 e Vello Sieben-Faulen 4-5,5. Alguns anos após, as
consangüinidades em Wilma e Flora predominaram na criação pastoreira
mostrando a força dessas duas extraordinárias matrizes.
Uma digressãozinha que
não fará mal a ninguém. Um dos cargos mais importantes do
pastoreirismo é o de diretor de criação. Todas as entidades
pastoreiras têm os seus diretores de criação e ele faz parte da
comissão de criação. São esses elementos que orientam os criadores,
seguindo as normas ditadas pela sociedade mundial e pelo padrão
racial, para que os cruzamentos sigam as diretrizes traçadas para a
evolução da raça. E ainda verificam as ninhadas e emitem os
pareceres para registrá-la ou não ou somente alguns dos seus
componentes. Como tudo na vida, há os países que seguem esses
princípios rigidamente, conseguindo excelentes resultados, e outros
que não. Do meu sonho passarinheiro faz parte o diretor de criação e
a comissão de criação.
Sara Sonnenberg.
Essa extraordinária matriz nasceu em 31/07/1970. Era uma cadela
grande, de boa estrutura, angulações dianteiras chamativas pela
qualidade, movimentava-se muito bem, bom temperamento e espírito de
luta normal. Tinha uma fechadíssima consangüinidade 2-2 (autorizada)
em Dago Schloss Dahlhausen. Dago, como foi mostrado em destaque no
boletim anterior, era um animal belíssimo e andava pra dedéu, tinha
bom temperamento; como defeitos principais tinha maxilares fracos e
não transmitia o bom temperamento, sendo os seus filhos geralmente
tímidos e fracos de temperamento. Tive a oportunidade de conviver
com descendentes de Dago durante anos: eram lindos, andavam muito
bem, mas tinham uma timidez que somente ia desaparecendo com o tempo
se fossem bem manejados e, alguns animais, eram bastante medrosos. A
verdade é que o nosso grupo na época, pouco conhecendo de genética,
usava com o padreador descendente de Dago cadelas muitas vezes
também fracas de temperamento. Claro, a maionese desandava. Os
alemães eram muito mais espertos e conheciam o terreno que pisavam.
Procuravam tirar o máximo de Dago, corrigindo o temperamento com
cadelas adequadas. Vemos isso claramente no CRO de Sara, no qual a
sua mãe, Dolly Sonnenberg, era filha de Sara Rat, uma cadela
fortemente influenciada pelo pai, Edo Busecker Schloss, um dos
melhores filhos de Valet Busecker Schloss; a mãe de Edo também era
uma cadela Busecker Schloss, a SchH3 Zita. E Busecker Schloss,
amigos, é sinônimo de excelência em temperamento.
Notaram o detalhe? Por
trás de um cão com temperamento questionável sempre estavam
parceiras com temperamento adequado e genética para tal. Muitas
vezes deparamos com um pássaro de ótimas qualidades de canto, mas
tímidos nos torneios; para o aproveitamento genético do canto o
aconselhável seria usar fêmeas capazes de corrigir a timidez, ou,
pelo menos melhorá-la, e de linhas de bons cantores.
Para não mexer na
continuidade, vou dar somente uma palinha sobre os dois machos.
Valet
encontra-se em vários
CROs importantíssimos para a evolução da criação pastoreira: era
bisavô da extraordinária Wilma Kisselschlucht, portanto trisavô de
Xaver Arminius por parte de mãe, era trisavô de outra extraordinária
cadela, Sara Sonnenberg, mãe de Lasso Val Sole (o pai foi a legenda
Quanto Wienerau), trisavô de Ex Schlumborn, um dos melhores filhos
de Lasso Val Sole, e bisavô de Herzog Adeloga, filho de Dick
Adeloga e pai de animais excelentes como a ótima Anja Reststrauch
(mãe da extraordinária Fee Weihertuerchen, mãe de Fedor Arminius).
Foi sinônimo de estrutura e equilíbrio de temperamento, sempre
lembrando que Valet era trisavô da lenda no trabalho Ari Neffeltal.
Lasso Val Sole cruzado com Wilma Kisselschlucht gerou Xaver
Arminius, pai de Quando Arminius, o cão que mais influencia a
criação pastoreira mundial na atualidade.
Por trás de um grande
cão existe sempre uma grande cadela. E vão percebendo, caros
passarinheiros, que as grandes cadelas somente eram cobertas por
machos excepcionais, mesmo que para isso fossem necessários
consórcios, aluguéis ou empréstimos das mesmas. E tudo administrado
por uma entidade nacional que realmente tem o controle da criação
nas mãos. Se você tem uma fêmea de ótimas qualidades, capaz de
transmitir qualidades às suas progênies, faça tudo para que ela seja
galada por machos excepcionais ou, quando for impossível, pelo
melhores machos possíveis. Enquanto os criadouros ficarem restritos
aos cruzamentos entre as suas próprias fêmeas com os seus próprios
machos, a criação não evoluirá como um todo, sendo os sucessos
fugazes e inconsistentes. Muitas vezes a grande fêmea para o seu
macho não está nas suas prateleiras e sim nas do vizinho ou algum
amigo.
A importância
de Jalk é incontestável, bastando dizer que: 1- Foi o pai da
ninhada L Wienerau, base das linhas Canto e Quanto Wienerau e 2- Das
linhas modernas do pastoreirismo, somente a linha Mutz, a maioria
dos cães da ex-Alemanha Oriental (DDR) e as linhas vindas da ninhada
B Lierberg (Bernd e Bodo) não foram influenciados por ele.
Vejam no parágrafo
sobre Valet o surgimento de duas outras ótimas cadelas que
influenciaram grandemente a evolução do pastor alemão: Anja
Reststrauch e Fee Weihertuerchen.
Anja, um excelente tipo
de cadela, tipão de matriz como a sua mãe era digna representante
das magníficas matrizes Reststrauch. Tenho por norma valorizar o
trabalho dos grandes criadores, pois, sem eles, com a sua visão de
criação, persistência e, sobretudo, disciplina para seguir as normas
estabelecidas, a criação pastoreira jamais teria evoluído tanto. E
dentre esses criadores não poderia deixar de citar Günter Köllges
que, em Mönchengladbach, criou excelentes animais. Anja nasceu em
17/03/1976, pequena ninhada com um só irmão, o também muito bom
Atlas. Trazia a preciosidade do cruzamento de macho tipicamente
Quanto com uma fêmea típica da linha Canto fortemente influenciada
pelo magnífico Jago Baiertalerstrasse. Anja Reststrauch foi
coberta pelo mais bonito animal da essencial ninhada X Arminius,
Xando Arminius, animal de excelente tipo que, talvez por ser
superangulado atrás e excessiva altura, foi vendido para a África do
Sul; do cruzamento nasceu, em 1979, Fee Weihertuerchen,
cadela consangüínea Quanto Wienerau 3-4, Vale Busecker Schloss
5-5,5 e ninhada L Wienerau, Lido-Liane 5-5. Fee era fortemente
influenciada pela proximidade da consangüinidade em Quanto, mas
mantinha as excelentes qualidades das matrizes Canto; Fee foi mãe de
uma das lendas do pastoreirismo e cabeça da linha sangüínea Canto
Wienerau no pastoreirismo moderno, Fedor Arminius.
Outras cadelas
excepcionais para a criação foram Olga e Oti Trienzbachtal.
Eram filhas de Ali Katzenbuckel, filho de Quanto Wienerau com uma
cadela de linha mais antiga, Dora Kislauer Schlösle. Esse cão
agradava muito o experiente dono do canil Trienzbachtal que o usou
várias vezes e obteve duas belas ninhadas dele com Freya
Gretengrund. Na ninhada O, nascida em 26/10/73, destacaram-se as
cadelas Otti e Olga Trienzbachtal. Otti, V16, coxofemorais
normais, SchH3, era uma cadela mediana, forte, seca, harmoniosamente
construída, boa cernelha, boa linha superior, garupa curta e caída,
boas angulações e proporções de peito, frente correta e acentuado
espírito de luta. Olga, V32, SchH3, era grandona, forte,
garupa curta, boas angulações, frente correta, não possuía cotovelos
perfeitos, boas passadas com forte impulsão e marcado espírito de
luta. Ai vai uma lição de bom criador: Otti e Olga tinham
deficiências evidentes de garupa, mas tiveram valorizadas as suas
qualidades para a criação, o que, não teria acontecido com criadores
inexperientes numa criação ainda fetal como a nossa. Olga é mãe
de Pirol Arminius (com Cliff Haus Beck), avô da lenda Uran
Wildsteiger Land, mostrando o seu reconhecimento como matriz por
outro ótimo criador, Hermann Martin, titular do Arminius.
Há canis de pastores
cujas fêmeas fizeram e fazem história na criação. As fêmeas do canil
Asterplatz eram muito consideradas pelos irmãos Martin,
especialmente Hermann, e Ernst Beck (Hermann foi titular do canil
Arminius e presidente da SV e Beck é titular do canil Haus beck e
foi diretor de criação da SV por longos anos); Frigga Asterplatz,
por exemplo, era mãe de Yoga Wienerau, mãe de Quanto Wienerau. Oase
era filha de Nico Haus Beck (Veus Starrenburg-Alf Nordfelsen),
expoente entre os cães de trabalho e garantia, além da qualidade
fenotípica, de excelência temperamental e da excelente SchH1 Gitta
Asterplatz, filha de Jalk Fohlenbrunnen e Dixie Wienerau (pai e mãe
de Liane, mãe de Canto, e de Lido Wienerau, pai de Yoga, mãe de
Quanto). Portanto, o Asterplatz, através das suas fêmeas, teve papel
preponderante no surgimento desses dois excepcionais raçadores e
iniciadores de duas linhas de sangue básicas para toda a criação
pastoreira em todos os tempos: Canto Wienerau e Quanto Wienerau.
Notem como a criação pastoreira no período evoluiu principalmente em
torno dos canis Wienerau, Haus Beck e Arminius, com pitadas de
outros canis como o Asterplatz, que criavam usando, na maioria das
vezes, animais das três grifes principais (Canto, Quanto e Mutz).
Esse talvez tenha sido o principal fator da uniformidade de tipo
observada nos pastores alemães de estrutura criados atualmente. Como
presidente e diretor de criação da SV, Hermann e Beck,
respectivamente, tinham enorme influência na criação alemã. No nosso
país continental, envolvendo várias espécies de pássaros, e sem uma
entidade nacional reconhecida como única por todos, será impossível,
ou pelo menos muito difícil, termos um controle tão centralizado.
Em 1973, nasceu no
canil Weidtweg o cão Kuno Weidtweg, filho de Jonny Rheinhalle (filho
de Mutz Pelztierfarm) e Ina Klämmle (o Klämmle é outro canil grande
produtor de fêmeas de qualidade); embora não fosse nenhuma Brastemp,
inclusive indo pouco às exposições, Kuno era visto por Walter Martin
como um animal que encaixava nos seus planos. Outro ensinamento
importante e que vale a pena ser repetido: nem sempre o pássaro
necessário para a melhoria do plantel de determinado criadouro está
nas luzes dos torneios, cabendo ao criador ter a sensibilidade e o
conhecimento para achá-lo em outros lugares menos badalados do que
as estacas. Walter levou para ser coberta por ele a excepcional
matriz Flora Königsbruch, filha de Canto Wienerau com a
extraordinária Wilma Kisselschlucht. Creio que a idéia era abrir
mais um caminho para a grife Wienerau jogando Mutz sobre Canto.
Notar que, após os grandes sucessos de Canto e Quanto, o canil
Wienerau, apesar de continuar produzindo muita qualidade, já tinha
ombreando com ele no período que estudamos o Haus Beck e,
principalmente, o Arminius. E Walter não tinha temperamento de
coadjuvante e procurava caminhos para voltar ao topo. Em 28/05/76,
nasceu na bela propriedade rural de Viernheim, a ninhada N Wienerau
que teve como destaque Nick Wienerau. Nick era um belo
animal, forte, substancioso e muito corajoso, indicado para fêmeas
das linhas Quanto e Mutz; e toda a ninhada, de seis animais, era de
qualidade, mostrando a sua força genética.
Aí outro detalhe
importante, geralmente o bom animal (no nosso caso o pássaro nativo)
faz parte de uma ninhada de qualidade média muito boa, demonstrando
que não é fruto do acaso, mas da procura do criador usando os seus
conhecimentos de genética. Se for um pássaro muito bom, mas o único
bom da ninhada, sem irmãos de qualidade de outra ninhada dos mesmos
pais ou sem outros parentes colaterais de qualidade, provavelmente
seja fruto do acaso e dificilmente terá condições de passar as suas
qualidades para a progênie e, mesmo que o faça, não haverá a mesma
segurança do que quando se parte de cruzamentos dentro de um
planejamento genético adequado. São esses pássaros, e você já deve
saber de algum, que desaparece após os seus brilhos nas estacas, sem
progênie para confirmar as suas qualidades e manter o seu nome.
Outra cadela básica
para a evolução pastoreira foi Fina Badsee, filha de Veit
Haus Köder, da linha Canto Wienerau, e Wala Sturmwolke; era uma
cadela mediana, muito compacta e meio pesadona, muito bem
construída, antebraços muito bem colocados e de ótimos comprimentos
ósseos, ombros de ótimo comprimento, boa cernelha, muito boa linha
superior, ótima garupa, movimentava-se muito bem e com grande
disposição e tinha ótimo espírito de luta. Enfim, uma cadelaça que
só poderia dar no que deu, como diria a minha avó. Fina, criada em
Bad-Boll por Karl Straub, era propriedade de Peter Ricker, titular
do canil Bad-Boll e que deve ter acompanhado a cadela desde filhote,
e de Martin Göbl, titular do Wildsteiger Land. Amigo
passarinheiro, tudo na vida tem o seu tempo: os pais de Fina, se
vivessem nos dias de atuais, jamais seriam cruzados porque possuíam
displasia coxofemoral, uma das doenças mais controladas entre os
pastores, mas, à época em que viveram, não se poderia deixar de lado
os cães com as suas qualidades. Como a criação de pássaros nativos
ainda não atingiu o nível da criação de cães pastores alemães, não
podemos nos dar ao luxo de desprezar na criação um pássaro de
excelentes qualidades para a criação, mas portador de alguma
deficiência que poderá ser sanada pelos cruzamentos adequados ou
mesmo ser somente fenotípica e não passível de ser transmitida
geneticamente. Fina tinha coxofemorais normais. Claro que o
titular do Badsee, quando cruzou os pais de Fina, pensava em Asslan
Klämmle, pois Klämmle era sinal de bons animais da linha Canto
Wienerau, sendo famosas as fêmeas por ele geradas como a própria mãe
de Asslan, Zilly Klämmle.
Embora não seja a minha
praia, observo que há criadouros de curiós, talvez de bicudos, já
podendo ser conhecidos pela excelência das fêmeas que geram; se a
criação fosse bem sistematizada e controlada, esse trabalho seria
muito mais valorizado e visto como um fator importante na evolução
da criação como um todo.
É risível a
diferença de preços entre machos e fêmeas dos pássaros nativos. E
mesmo com preços bem abaixo dos machos, os filhotes fêmeas têm um
mercado muito limitado e ficam ocupando espaço nos criadouros por
longos tempos. Típico de uma criação ainda não sedimentada, que não
valoriza o potencial genético ou não sabe a importância das fêmeas
para a criação. O contrário acontece com as criações de animais já
sedimentada e bem controlada, como a dos pastores alemães em muitos
países, nas quais os preços das fêmeas são geralmente maiores e o
criador segura a melhor da ninhada para ele.
Na pequena, fria e
distante Wildsteig, na região alpina da fronteira com a Áustria,
Martin Göbl, titular do canil Wildsteiger Land, continuava por
dentro do que acontecia no centro da Alemanha, onde estava a maior
concentração de criadores. Sabia das qualidades de Nick e a sua
indicação para cadelas Quanto e Mutz. Tinha um trunfo nas mangas: a
já muito conhecida matriz Fina Badsee, adquirida em boa hora
em sociedade com Peter Rieker, titular do canil Bad-Boll, de Karl
Straub, titular do Badsee, situado na própria Bad-Boll.
Outro ensinamento:
mantenha sempre vigilância sobre os criadores situados na sua cidade
ou nas cidades próximas dela;visite-os, pergunte, pesquise e
encontrará, muitas vezes, o pássaro adequado para a sua criação.
Fina tinha linha materna Quanto pelo seu avô Gundo Klosterbogen, mas
era uma cadela típica da linha Canto influenciada por seu avô Asslan
Klämmle, grife que, como já foi visto, era pródiga nesta linha.
Göbl não
pensou duas vezes, levou Fina para ser coberta por Nick ignorando,
com toda a certeza, que iria revolucionar a criação pastoreira
moderna. A
ninhada Nick e Fina, nascida em 06/02/79, era composta por seis
animais, três fêmeas (Palme, Perle e Petra) e três machos (Panter,
Pax e Pitt). Os machos tiveram pouca expressão, mas as fêmeas eram
de primeiríssima qualidade, confirmando a predominância do genoma
Canto. Perle era uma cadela linda, VA 81 e 82 e foi vendida para o
Paquistão. Petra também era muito bonita e foi selecionada
excelente. Mas Göbl segurou em Wildsteig a que poderia ser o patinho
feio, Palme
Wildsteiger Land.
E não
posso deixar de fazer comentário. Nem sempre o melhor animal da
ninhada para a criação é o de maior sucesso nas exposições. Göbl
segurou Palme porque ela era parecida com Fina, portanto, com alguma
segurança possuía grande parte dos genes constituintes do genoma
Canto. E Canto era sinônimo de boas matrizes. E boas matrizes são a
base para a sedimentação e qualidade de qualquer criação. O
experiente Göbl trocou os momentos gloriosos e fugazes de puxar a
guia de uma VA nas Siegers pela glória eterna, dentro do
pastoreirismo, de criar o animal considerado por muitos o mais
importante para o que é hoje o pastor alemão de estrutura. Se você
quer criar bem, reveja os seus conceitos, pois, muitas vezes, o que
procura não está nas exposições; está entre os cães que vendeu, deu
ou no ostracismo das instalações de alguns canis.
Afinal, devem estar
perguntando para os seus botões, geneticamente o que é uma boa
matriz? Resumidamente seria a fêmea capaz de ser recessiva às
qualidades procuradas nos machos usados com ela e, ao mesmo tempo,
impor aos genes dos machos as suas qualidades. Claro que nenhum
animal é capaz de ter 100% essas qualidades, mas serão melhores os
que mais se aproximarem delas. Não é brinquedo não, amigos. Por isso
as boas matrizes são disputadas a tapas e muito dinheiro.
E isso é
válido para os criadores de pássaros nativos sem tirar e nem por
nada. Sabe aquele bicudo, ou curió, ou canário-da-terra ou coleiro
que estraçalhou nas estacas dos torneios, mas está longe dos seu
bolso ou o proprietário não vende? E não deixar criar com ele para
não “estragar? Pois é, tente comprar o irmão ou a irmã dele, pois, a
chance deles passarem as qualidades genéticas são quase as mesmas,
às vezes até maior, do que a do grande campeão; e isso pode ser
conseguido com os curiós e os bicudos, mais dificilmente com os
canários-da-terra, coleiras e trincas.
Não posso deixar passar
a deixa para contar uma história: sempre achei Walter Martin,
titular do canil Wienerau, o criador que, depois de Stephanitz, mais
tenha influenciado a criação pastoreira. Assim, eu procurava ler e
ouvir tudo o que se escrevia ou falava dele. A um jornalista
norte-americano afirmou o que eu ouvi diretamente do próprio Walter,
no Rio de Janeiro, na Estrada dos Bandeirantes,quando veio julgar
exposição: -Se quer começar a criar bem, procure um bom criador,
selecione uma boa ninhada e compre a pior fêmea; a melhor fêmea o
canil segura para ele e a pior, bem mais barata em termos de
dinheiro, trará quase a mesma genética e, acasalada com ótimos
padreadores, dará origem a uma boa base. Falou, disse e eu assino
embaixo.
E como era
Palme
no genótipo e no
fenotipo? Palme era grandona, muito típica, fortona, substanciosa,
firme, boa linha superior, muito boa garupa, muito bem angulada,
frente correta, movimentava-se bem com passadas coordenadas e bom
alcance, espírito de luta pronunciado. Enfim, não tinha destaque
para exposição, mas era uma cadelaça e com excelente tipo de matriz
da linha Canto, inclusive sendo um pouco clara. E todo canil que se
preza tem no seu plantel algumas cadelas claras, ossudas e de bom
desenvolvimento muscular.
Se era tão boa, por que
não foi às exposições ?, perguntarão os passarinheiros não
acostumados com as lides pastoreiras. Por dois motivos: falta do
interesse do criador ou o conjunto não se apresentava bem aos olhos
atentos dos juízes. E acho também que o cão de exposição tem que ter
o espírito da competição. Muitas vezes um cachorro de qualidade
inferior, mas com espírito de competição, se apresenta nas expos bem
melhor do que um irmão de melhores qualidades, mas com falta do
mesmo espírito. Os criadores de canários-da-terra sabem que muitos
canários bons de estacas de fibra somente cantam bem nos torneios,
sendo uma negação em casa. E aí outro dado importante do que falta
para os passarinheiros: exposições de fêmeas. As qualidades e os
defeitos fenotípicos de um macho podem ser avaliados em torneios.
Por que não podemos ter torneios de fêmeas para essas avaliações?
Creio ser perfeitamente factível e importante. Claro que não vai se
avaliar os seus cantos, mas uma análise de outros dados do fenótipo,
uma avaliação do seu genótipo através de um documento tipo CRO e
dados sobre os temperamentos seriam de grande validade para a
criação. Dirão vocês, tentando me colocar de novo numa fria: -Mas,
Palme não foi a exposições. Não foi realmente, mas foi avaliada
quanto às suas qualidades, tanto por seu dono como por uma comissão
de criadores especializados ao submete-la à seleção para a criação.
Como seu
filho Uran, foi muito longeva e conseguiu a proeza de ter 13
ninhadas.
Outro dado
importante a ser levado em conta para o criador de pássaros: a
fertilidade e a longevidade procriatória, tanto da fêmea como do
macho, permitindo uma melhor avaliação das suas qualidades com
diversos parceiros.
No CRO Palme vem de pai típico da linha Mutz (Kuno Weitweg-Jonny)
influenciado pela linha Canto (Flora-Canto) sobre mãe da linha Canto
(Veit-Asslan-Canto) e, também, era influenciada pela linha Quanto
(Gundo-Quanto). Portanto, Mutz sobre Canto, um cruzamento comum na
época, embora não tão clássico como Quanto sobre Canto, e
secundariamente Canto sobre Quanto, numa interessante interação
genética.
É notável na ascendência de Palme a presença de cadelas de ótimos
fenótipos e excelentes matrizes como Ina Klämmle, Flora Königsbruch,
Wilma Kisselschlucht e Wala Sturmwolke.
Em 5 gerações Palme possuía as seguintes consangüinidades: Liane
Wienerau 4-5, Canto Wienerau 3-4, Hein Königsbruch 4-5, Jalk
Fohlenbrunnen 5-5 e Fix Sieben-Faulen 4,5-5. Todas consangüinidades
de qualidade e somatórias. E, como é comum nos pastores, todas
observando o linebreeding.
Observem, amigos
passarinheiros, as jogadas para a programação de cruzamentos tendo
em mãos a avaliação fenotípica do animal feita durante a seleção
para a criação e durante as expos e as possibilidades genotípicas
mostradas por uma leitura atenciosa e com conhecimento do CRO. Ver
um CRO é uma coisa, agora, entender o que ele está mostrando da
genética dos seus componentes o furo é bem mais embaixo. Como diz,
com muita propriedade o Taddei, “não adianta dizer quem foram os
ascendentes de determinado pássaro, mas, sim, o que eles foram”.
Ainda estamos engatinhando na elaboração de um CRO dos pássaros
nativos nascido nos criadouros, mas, sem ele, nada feito quanto a
uma criação organizada e com sedimentação genética, pois, seria
caminhar no escuro e sem rotas ou metas estabelecidas.
O criador nem sempre
deve se guiar somente pelo fenótipo, a parte visível do pássaro,
desde os seus dados anatômicos até o seu o canto, pois, algumas
vezes, o mandatório é o genótipo, a carga genética do pássaro.
Num “grego” de genética conhecida pode estar o segredo de uma
prole de bons cantores.
Hermann Martin, titular
do canil Arminius, um dos maiores em toda a história pastoreira,
cruzou o cão Cliff Haus Beck (filho de Quanto Wienerau com Oase
Asterplatz) com Olga Trienzbachtal. Cliff e Olga tinham deficiências
de garupa, Olga tinha garupa curta e Cliff garupa caída, Olga tinha
deficiências de cotovelos e Cliff de metacarpos, mas mesmo assim
foram cruzados procurando-se resultados que estavam provavelmente
nos seus genótipos configurados nos CROs. E Beck foi, durante anos,
o diretor de criação da SV, portanto, mais do que ninguém, sabia
interpretar um CRO. De Cliff x Olga nasceu a ninhada P Arminius com
destaque para Pirol Arminius. Depois, Hermann cruzou Pirol
com Dunja Weilachtal, ótima cadelona filha de outra ótima matriz,
Rita Kopenkamp, filha de outra excelente, Cora Kopenkamp. De Pirol x
Dunja nasceu, em 09/05/78, a ninhada I Arminius com destaque para
Irk Arminius.
Observem que o objetivo
perseguido nem sempre é conseguido no primeiro cruzamento, e o
criador experimentado sabe muito bem conseguir os seus objetivos
seguindo trilhas com paciência e conhecimento.
Claro que Göbl Martin,
na sua Wildsteig, continuava plugado no que acontecia na criação
pastoreira, principalmente no eixo formado por Wienerau-Haus
Beck-Arminius e, procurando um macho fortemente influenciado por
Quanto para cobrir Palme Wildsteiger Land, fortemente influenciada
pela linha Canto, optou por Irk que tinha consangüinidade Quanto 2-3.
Aqui dois
dados importantes para criador de qualquer coisa viva: 1- Como já
dissemos, a linha Quanto sempre deu bons resultados com a linha
Canto, principalmente Quanto na linha alta e Canto na baixa. Foi o
cruzamento de linhas mais prolífero de toda a história pastoreira.
Portanto, Göbl, criador um pouco conservador, procurava o óbvio. Já
pensaram se soubéssemos, com boa dose de certeza de bons resultados,
que a linha do curió X, perfeitamente caracterizada por um padrão,
daria boa amálgama com a linha da curiola Y? Covardia, né? e 2- No
pastoreirismo é proibido, a não ser em casos especialíssimos e
autorizados, e durante décadas de militância não soube de nenhum, o
cruzamento de pais ou mães com filhos, irmãos com irmãos ou meio
irmãos com meio irmãos. Portanto, inbreeding fora de cogitações,
sendo usados somente linebreedings a partir de 2-3 ou 3-2.
Anda voltarei em outro boletim a essa história de line e
inbreeding.
Assim, em 12/03/81,
Wildsteig viu nascer a histórica ninhada U Wildsteiger Land,
composta por oito animais, sendo quatro machos (Uran, Ulan, Ully e
Utz) e quatro fêmeas (Ulla, Ulme, Ursula e Ute). Consangüinidade
Quanto Wienerau 4,5-5 e Gitta Asterplatz-Liane Wienerau 5-5. Ulla
foi selecionada como excelente e era SchH3, Ute foi excelente e
SchH2, de Ursula pouco ou nada se sabe. Ulme foi a fêmea de maior
destaque nas pistas, SchH3, foi VA 8 em 1984 e Vice-Siegerin em 85
em Mannheim; era uma cadela grande, medianamente forte, seca,
substanciosa, boa cernelha, linha dorsal firme com boa garupa,
frente correta, boa profundidade de peito, passadas elásticas com
boa cobertura de solo e pronunciado espírito de luta. Dos machos,
pouco destaque para Ully, SchH1 e selecionado como muito bom e pouco
ou nada se sabe sobre Ulan e Utz. O destaque da ninhada foi a lenda
Uran Wildsteiger Land.
Falar de Uran agora é fácil, mas Hermann jogou as suas fichas no seu
potencial e colocou as suas expectativas desde a primeira vez que
viu o cão que, alguns anos depois, disse ser o maior potencial
individual de raçador em toda a história do pastoreirismo. Vou
ser franco: creio que, se pudesse ter visto todo o desenvolvimento
da linha Quando Arminius, o que não foi possível em sua totalidade
devido a sua morte, Hermann teria colocado Quando no mesmo nível
de Uran. Na realidade, tenho a certeza de ser praticamente
impossível eleger um pastor alemão como o maior de todos os tempos;
cada um foi muito importante na sua época e no período evolutivo da
raça: o pai de Horand, Horand, Rolf, Quanto, Canto, Mutz, Palme,
Fina, etc. Meu pai apostava, como maior jogador que viu, no Di
Stéfano e no Zizinho, aposto no Pelé e no Garrincha e o meu filho
vota no Maradona; questão do tempo vivido, sempre lembrando que,
como dizia Jorge Luiz Borges, o passado é argila que moldamos de
acordo com as nossas conveniências. O CRO de Uran mostra, além do
clássico Quanto sobre Canto, com pitada de Mutz e consangüinidades
Quanto 4,5-5 e Gitta Asterplatz-Liane Wienerau 5-5, uma plêiade de
matrizes consagradas: Palme Wildsteiger Land, Fina Badsee, Olga
Trienzbachtal, Flora Königsbruch e Wilma Kisselschlucht, sem dúvida
uma das causas da tendência da linha de produzir excelentes fêmeas.
Observem, amigos passarinheiros, dois aspectos nesse CRO
(pedigree): 1- Duas consangüinidades em linebreeding, sendo uma
delas em fêmeas e 2- O forte encadeamento genético determinado por
fêmeas exponenciais como qualidade individual, potencial genético e
qualidade de matrizes, inclusive capacidade para criar bem os seus
filhotes. O must, como diria a netona filósofa.
Uran era elegante,
movimentava-se muito bem com leveza e amplas passadas mostrando
excelente trem anterior, tanto na angulação escápulo-umeral como no
comprimento dos ossos, qualidades que passava com freqüência para os
seus descendentes. Uran marcou um tipo homogêneo de pastor com uma
pigmentação que passou a criar moda no pastoreirismo. Embora não
tivesse um fenotipo tão marcante como o de Quanto Arminius, por
exemplo, Uran tinha e transmitia o equilíbrio das proporções, uma
elegância sem qualquer tendência para pesadão, a firmeza de
ligamentos, uma frente soberba e a alegria de caminhar com passadas
rendosas e muito amplas. Mas, como toda a unanimidade é burra como
dizia Nelson Rodrigues, Uran tinha detratores que apontavam as
deficiências que transmitia para alguns filhos: cabeça pouco
masculina, pigmentação tendendo para o claro, combatividade que
tinha que ser muito exigida para aparecer e, talvez a maior de
todas, foi um dos grandes responsáveis pela uniformidade de tipo e
coloração que encontramos atualmente nos cães de estrutura,
afastando-se muito da heterogeneidade ainda encontrada nos cães de
trabalho e, segundo alguns, afastando-se do padrão que deu origem à
raça. Creio que, sem ser o dono da verdade, ao contrário de Quando
Arminius que permitiu evolução da linha Quanto Wienerau mantendo as
suas principais características, Uran criou algo novo, a chamada
linha Urânica, um meio termo entre as linhas Quanto e Canto
Wienerau. Futebolisticamente poderíamos afirmar que Quando era o
craque que jogava para o grupo e Uran o craque que brilhava por sua
individualidade. Quem foi mais importante? Não sei e volto a
afirmar: não me metam nessa briga, nem mesmo como expectador ou
testemunha... Uran tinha duas características que ajudaram muito o
seu sucesso: grande capacidade para o trabalho, mesmo na idade mais
avançada, e longevidade com saúde que permitiu participar por 9
anos do grupo de progênie, a última vez em 1992 quando foi
ovacionado, pelo público presente no Stadium de Düsseldorf, ao
desfilar galhardamente, apesar dos 11 anos de idade, encabeçando
grupo de progênie com 17 animais.
Sem dúvida, a grande
tacada de Lasso Val Sole, o mais importante filho de Quanto
Wienerau, foi o cruzamento com Wilma Kisselschlucht do qual nasceu,
em 07/03/77, a legendária ninhada X Arminius, composta por
oito animais (três machos, Xaver, Xando e Xero e cinco fêmeas,
Xandra, Xita, Xane, Xênia e Xiena). Uma das fêmeas, Xenia, era uma
cadela de excelentes qualidades, tanto no fenótipo como no
temperamento e foi VA em 1980, em Bremen. Xando, considerado o
animal mais bonito da ninhada, V1 em Mannheim, era um cão grande,
fortão, seco, com boa garupa, boa cernelha, excelentemente angulado
na frente, movimentava-se muito bem e acentuado espírito de luta;
superangulado atrás e altura acima do aceitável, foi vendido para a
África do Sul deixando na Alemanha uma filha com Anja Reststrauch,
Fee Weihertuerchen, mãe de Fedor Arminius, que foi o continuador
mais moderno da linha Canto Wienerau. Xandra foi muito usada por
consórcio dos canis Reststrauch e Arminius. Mas, sem dúvida, para a
criação pastoreira em geral o grande nome da ninhada foi Xaver
Arminius. Xaver era um animal mediano, forte, alongado,
expressivo, muito bom trem dianteiro, muito angulado atrás, boa
garupa com boa linha superior e espírito de luta acentuado, embora
alguns criadores, como Walter Martin, o considerassem de
temperamento excitável.
Um
hiatozinho: O Apolo da ninhada era Xando, mas Hermann Martin foi
buscar num outro membro da ninhada, com pouco sucesso nas exposições
e fenotipo inferior ao de Xando, o animal ideal para o seu
planejamento de criação. Sorte, feeling, conhecimento cinológico e
de genética? Creio que um pouco de cada coisa e muito de um
planejamento de criação alemão do qual ele foi um dos artífices.
Amigos, não reneguem os patinhos feios da ninhada. Se não tiverem
faltas desqualificantes, valorizem as suas qualidades e tentem
usá-los na criação. Quem sabe se, com parceiras adequadas, não
poderão ocasionar surpresas muito agradáveis. A genética, ciência
muito mais das probabilidades do que das certezas, poderá esconder
no genótipo do patinho feio a beleza ou o canto que o seu irmão
bonitão não pode transmitir. Traslado, sem tirar ou por uma vírgula,
tudo isso para os criadores de pássaros nativos brasileiros. Sem
feeling, sem conhecimento genético e com a cegueira do criadouro
(capacidade que alguns criadores têm em não aceitar defeitos nos
seus pássaros) ninguém conseguirá criar seletivamente qualquer
espécie animal. Podem dar sorte uma ou outra vez, mas, no todo,
sairá muita porcaria do seu criadouro.
Claro que, como
estudioso e alto dirigente da SV, da qual seria presidente um ano
após, Hermann sabia das esperanças de Herr Göbl Martin, em
Wildsteig, numa cadela fortemente influenciada por Canto e no seu
cruzamento com machos Quanto. E tinha conhecimento da boa ninhada U
Wildsteiger Land, nascida em 13/03/81, filha de Palme com Irk
Arminius, neto de Cliff Haus Beck (Quanto). Os amigos Göbl, Hermann
e Ernst Beck conheciam muito bem Irk e Xaver, pois, eram cães com
fortes influencias das suas grifes.
Aí mais um ensinamento
para nós, criadores de pássaros: comunicação entre os criadores,
digo criadores e não amantes dos pássaros, troca de experiências sem
esconder nada e consorciamentos ou empréstimos de pássaros entre si
são essenciais para o desenvolvimento de um trabalho de seleção.
Esconder o jogo não leva a nada.
Com a ninhada U
Wildsteiger Land com seis meses, portanto com a possibilidade de ser
melhor avaliada por olhos atentos e conhecedores, Hermann trouxe
Palme Wildsteiger Land para as dependências do Arminius e, sem
espaçamentos entre estros, a usou com Xaver repetindo o clássico
linha Quanto sobre Canto (ou Canto sobre Quanto para não dizerem que
sou machista...).
Outro ensinamento: a
humildade em reconhecer e tirar proveito do trabalho de terceiros.
Hermann Martin chegou ao cargo de presidente da SV e era dos
melhores criadores de pastores do mundo em todos os tempos, mas,
reconheceu o trabalho do seu amigo Göbl, do Wildsteiger Land, que
gerou Uran e resolveu usar a mesma Palme com outro macho da mesma
linha de sangue de Irk Arminius. Pelo sufixo vê-se que tanto Irk
como Xaver foram da criação de Hermann. Portanto, Hermann reconheceu
que Göbl conseguiu, usando macho da griffe Arminius, dar um passo
qualitativo que ele buscava. E reconheceu que grande parte do
segredo era Palme, criação de Göbl e filha de cães Wienerau, griffe
do seu irmão Walter, e Badsee. Sem essa humildade ninguém criará
nada com qualidade.
A salientar também a falta de egoísmo de Göbl, pois, tendo Palme,
e provavelmente sabendo das intenções de Hermann, poderia tê-la
usado com Xaver e faturado os louros de ter produzido os dois cães
que mais influenciam o pastoreirismo na atualidade: Uran e Quando; e
mais ainda, usando uma cadela de sua própria criação. Glória máxima.
E aí houve a grande
tacada, muito provavelmente não por acaso: Xaver era do tipo mais
cachorrão do que Irk e esse detalhe, creio eu, sem ser o dono da
verdade, iria marcar a criação pastoreira definitivamente com as
diferenciações entre a linha Quanto Wienerau, através de Quando
Arminius, e a linha Quanto Wienerau através de Uran Wildsteiger
Land.
Em 28 de novembro de
1981 nasceu a ninhada de Xaver e Palme, a histórica ninhada Q
Arminius. Para muitos foi e ninhada mais importante de toda a
história pastoreira mundial. Como ninhada pode ser, mas,
individualmente, coloco Quando e Uran no mesmo patamar. Eram sete
filhotes, quatro machos (Quando, Queno, Quino e Quindo) e 3 fêmeas (Quana,
Quina e Quena). Sem dúvida a estrela da ninhada foi
Quando Arminius.
Quando ganhou a juniores da Sieger de Frankfurt, em 83, foi
V1 em Dortmund em 84, VA5 em 85 em Mannheim e Sieger 86 e 87 em
Hamburg e Duisburg. Em Duisburg, Quando Arminius travou um belo
duelo com Eiko Kirschental (Uran) numa classe de VAs muito rica que
contava ainda com Yambo Wildsteiger Land (Uran), Fedor Arminius e
com os seus (de Quando) próprios filhos Iso Bergmannshof e Odin
Tannenmeise, além de Cello Romerau como V3. Nem Uran conseguiu o
feito de ser Sieger numa classe com dois filhos no grupo de Vas. E
outros filhos de Quando brilharam em outras classes, como a Siegerin
das fêmeas (a suíça Senta Basilisck), o Jugendbester Enzo Burg Aliso
e, de quebra, a VA3 Rica Rader-Kreuz, filha do seu irmão Quino.
Quanto era um animal grande, meio forte (particularmente creio ter
sido um animal forte), seco, tipo lindíssimo, cernelha muito boa,
ótima garupa, otimamente angulado tanto na frente como atrás, com
excelentes comprimentos de ossos, profundidade correta de peito,
ligamentos firmes, muito boa linha superior, frente correta,
movimentava-se com largas passadas fortemente impulsionadas pelos
posteriores, acentuado espírito de luta.
Portanto, demos uma
passeio condensado pela história do pastor alemão, dando ênfase às
fêmeas e com o clímax em Palme Wildsteiger Land, mãe das duas
maiores lendas do pastoreirismo mundial atual e com pais diferentes,
Uran Wildsteiger Land e Quando Arminius. É mole ou querem mais?
Creio não ter ficado
qualquer dúvida sobre a importância vital do plantel de matrizes num
criadouro.
Não restando mais
dúvidas sobre a importância das fêmeas para qualquer criadouro, vou
particularizar mostrando essa importância na criação dos pássaros
silvestres:
1-
Alimentação dos filhotes.
Na natureza e nas criações monogâmicas (casal junto durante todo o
processo de criação) a alimentação dos filhotes é, geralmente,
dividida entre o macho e a fêmea. Nas criações poligâmicas, na qual
o macho somente adentra a gaiola da fêmea para a galadura, a
alimentação dos filhotes fica a cargo somente da fêmea. Como um
filhote malnutrido, além de apresentar maiores índices de
morbilidade e de mortalidade, jamais desenvolverá todo o seu
determinismo genético, a importância da fêmea nutridora ganha
proporções essenciais para a qualidade da criação ;
2-
A fêmea é responsável pela metade do patrimônio genético
nuclear e por quase todo o patrimônio genético mitocondrial herdados
pelos filhotes. Há alguns anos foi mostrado que, ao contrário do
que até então se pensava, além do patrimônio genético (genoma)
contido no núcleo celular, há uma genoma DNA contido em cada
mitocôndria. As mitocôndrias são corpúsculos situados no
citoplasma, forma de bastões, medindo entre 0.5 a 1 milimicra de
circunferência e 7 milimicra de comprimento, podendo atingir até o
número de 2000 em algumas células,como as do fígado, e que suprem as
necessidades energéticas das células, pois, por via da
fosforilização oxidativa, produz adenosino trifosfato ATP, uma forma
estável de estocagem de energia. O patrimônio genético mitocondrial
é diferente daquele situado no núcleo e é herdado através do
citoplasma dos gametas (óvulos e espermatozóides), principalmente
dos óvulos. O genoma mitocondrial consiste de moléculas de dupla
hélice circular com cerca de 16 000 pares de bases de DNA. Cada
mitocondrion pode albergar várias cópias dessa molécula circular de
DNA. Uma célula pode conter diferentes mitocôndrias com diferentes
genomas. Importante é que o mitocôndrio é constituído por proteínas
codificadas no seu próprio genoma, assim como por proteínas
codificadas nos genes contidos no núcleo celular; as proteínas
codificadas no genoma mitocondrial parece que são sintetizadas no
mitocondrion, enquanto as proteínas codificadas no núcleo são
sintetizadas no citoplasma celular e transportadas para o
mitocondrion.
Durante a fertilização
o espermatozóide não transporta, ou transporta muito poucas
mitocôndrias para o oocito. Assim, o ovo fertilizado praticamente
somente recebe mitocôndrias do gameta materno. Para alguns autores o
espermatozóide não carrega mitocôndrias para o oocito. Assim, os
genes mitocondriais vêm quase exclusivamente da mãe (herança
materna). Portanto, amigos, pelo menos na extensão do patrimônio
genético a importância da fêmea é maior do que a do macho. Muitas
doenças hereditárias determinadas por mutações genéticas e algumas
das mutações experimentadas pelos pássaros seguem o padrão de
herança materna.
3-
Imprinting
dos filhotes.
4-
Postura e choco dos ovos,
portanto guardiã do desenvolvimento do filhote e do seu patrimônio
genético. Por melhor que seja a fêmea, principalmente nos itens
fibra e coragem, se ela não tiver capacidade de por ovos e chocá-los
adequadamente, de pouca valia terá para o plantel;
5-
Responsável pela transmissão de doenças aos filhotes e aos
outros pássaros, tanto pela transmissão vertical como
horizontal. A postura e o choco diminuem as resistências orgânicas
da fêmea (notem como elas perdem peso nesse período), facilitando o
surgimento de doenças e mesmo o afloramento de outras que estavam
ocultas e somente esperando a queda da resistência para dar o bote.
As infecções, principalmente as do aparelho genital e do trato
gastrintestinal, poderão chegar ao óvulo, ao ovo e ao filhote até
com certa facilidade. Portanto, somente colocar para criar fêmeas
comprovadamente saudáveis. Muitas vezes o criador adquire uma fêmea
e, ansioso para conseguir criar com ela, não segue a quarentena e os
cuidados necessários e leva infecções sérias para todo o plantel.
Lembrar também que as fêmeas ficam mais confinadas, muitas vezes são
colocadas em bandos em viveiros ou gaiolões durante a muda, manejos
que facilitam a disseminação de doenças se cuidados não forem
tomados;
6-
Patrimônio genético fixo no criadouro,
permitindo usá-lo com machos adequados, emprestados ou alugados, com
grande diminuição dos gastos. Ainda não vi criadouro, de qualquer
espécie animal, que fixasse o seu patrimônio genético num grande
número de machos. Pode até acontecer num determinado período de
tempo, principalmente com os pássaros e no início da formação do
plantel, mas nunca como um projeto de criação contínuo ;
7-
Menor
gasto na formação do plantel.
Creio que nem precisa maiores explicações, bastando cotejar os
preços das fêmeas e dos machos no mercado. Graças e isso muitos
criadores sobrevivem, criando bem, com uma base econômica menor.
Portanto, os preços menores das fêmeas permite ao criador formar um
plantel de qualidade e a democratização de todo o processo de
criação;
8-
Maior
facilidade de manejo.
Quem cuida de um
criadouro sabe ser muito mais fácil manejar as fêmeas do que os
machos.;
9-
Possibilidade de maior variedade genética do plantel.
A possibilidade da busca de fêmeas com qualidades genéticas para
formar ou enriquecer o plantel em vários criadouros permite ao
criador um banco genético impossível, ou muito difícil, inclusive
economicamente, de ser conseguido se for procurado entre os machos.
Com fêmeas representativas de várias linhas sangüíneas, que tenham e
transmitam as qualidades dessas linhas, o uso de poucos machos
possibilitará n alternativas genéticas.